O FIO DAS LEALDADES
(Artigo publicado no Semanário A Nosa Terra a 29 de Julho de 2004)
Rudesindo Soutelo
O amor e mais o ódio, a entrega e o rejeitamento, a confiança e a suspeita são
as duas faces duma mesma emoção. Na música culta galega esses dois extremos
se manifestam com forças muito desiguais.
A classe política em geral é fanaticamente inculta e odeia tudo aquilo que
desconhece. O cinismo político não permite sentimentos de amor. Mas essa
incultura é premeditadamente selectiva e intransigentemente galeguicida. A
aniquilação da nossa língua, que subtilmente alicia o espanholismo
excludente, encontra no separatismo linguístico de certo nacionalismo galego o
cooperador necessário para nos isolar internacionalmente e ir reduzindo a nossa
cultura a um ermo baldio, inculto, rude e esmorecente onde só se nos reconheça
o direito à ignorância.
O lamentável é que neste culturicídio participe propositadamente o Ministro
de Cultura do Brasil, Gilberto Gil, que no seu concerto em Compostela nos
aborregou por não submetermos à fala internacionalista, que segundo ele não
é o português, nem sequer o inglês, mas o castelhano. Vindo do ministro de
cultura dum país que fala a nossa língua, essas palavras só se podem entender
como um insulto aos duzentos milhões de utentes que tem a nossa língua no
mundo. Será asneira política ou cultural? Ou vai ser coisa da cooperação com
o ministério de cultura espanhol? Nunca me interessei pela sua música, por
simples, mas agora também não pelo simplório.
No outro extremo estão os amadores incondicionais, sem poder nem dinheiro, nem
meios para dar pulo aos seus projectos. Uma amável leitora, Marilú, enviou-me
o CD de SonDeSeu "Mar de Vigo" (BOA, do fol 32); uma iniciativa
aliciante no requeimado eido do folque urbano.
Também recebi a recuperação do reportório de Os Dezas de Moneixas em CD
(Ouvirmos VR0104), que as nossas instituições deviam ter feito há vinte anos,
se fossem galegas.
Nesse trabalhar por amor à arte devo destacar o empenhamento de Glória
Rodrigues Gil por dar a conhecer a nossa música. Envia-me o programa dum
concerto didáctico de música contemporânea que se vai celebrar o 5 de Agosto,
as dez da noite, no Auditório Municipal de Goião (Tominho)com obras de
compositores galegos e catalães para quinteto de sopro.
O programa contem quatro estreias absolutas de Julio Montero, Pablo Beltrán, Glória
Rodrígues e David Llorens, e completa-se com obras de Jordi Sansa, Rudesindo
Soutelo, Ignasi Adiego, Manel Ribera e Albert Sardá. A mágoa é que as
instituições sejam surdas e não aproveitem esse esforço privado para subirem
ao carro da nossa música.
O amor e mais o ódio, ainda que são absolutos e excludentes, mantêm-se unidos
por um subtil fio que nos permite conhecer os diversos graus de lealdade dos
indivíduos intermédios, oblíquos, mutantes, descorados, desonestos, indignos
ou maliciantes. Numa relação amorosa de par qualquer percepção da lealdade
distinta do amor ou ódio absolutos é identificado com os ciúmes, e sempre
tende a um dos extremos.
Uma apaixonada leitora, Isabel, extraordinária guitarrista mas que está a
passar uma etapa iconoclasta, zanga-se comigo cada vez que defendo o direito dos
autores a vivermos do nosso trabalho. Infelizmente há muitas pessoas na Galiza
que inconscientemente cooperam com o poder galeguicida, e levo meses pensando se
vale a pena o esforço que semanalmente dedico a estes artigos.
Para rematar este ano de colaborações em A Nossa Terra quero invocar a memória
de Borobó, quem de um modo póstumo me cedeu o espaço dos seus Anacos e
aliciou o decurso destes escritos.
© 2004 by Rudesindo Soutelo
O Bardo na Brêtema