III SEMINÁRIO DE POLÍTICAS LINGUÍSTICAS

"25 ANOS DE ATIVIDADE CÍVICA, INVESTIGAÇÃO E DISCUSSÃO SOBRE A LÍNGUA NACIONAL:

O CONTRIBUTO DE ANTÓNIO GIL"   


                                                                        

 

                                                                          

  PALAVRAS SOBRETUDO PARA AGRADECER

Prof. Dr. António Gil Hernández, da A.A.G-P.

Palestra na apresentação do livro Temas de Linguística Política

30 de Março de 2006

0.- Depois de lembrar com carinho os meus, minha Rosa, meu Roi e minha Saleta, quero, antes de mais nada, na pessoa do presidente, o Prof. Vilhar Trilho, amigo e companheiro de diferentes batalhas, agradecer à Associação de Amizade Galiza-Portugal a ocasião que me deram de publicar um livro, quase velho pelo tempo da redação, embora novo em razão da oportunidade (quereria).

Em particular quero agradecer ao amigo Ângelo Cristóvão, secretário da Associação, o seu empenho por lançar o livro e lançar-me de novo à atualidade galaico-portuguesa, a mim, que “oficialmente” estou retirado (sem “quase”) e sobretudo que quero retirar-me.

Faço extensivo o meu agradecimento aos sócios da Associação de Amizade Galiza-Portugal, ativos e passivos: aos amigos Álvaro Vidal, Carlos Durão, o londinense, Suso da Loira, Ângelo Brea e Mário Herrero. Aos citados e aos não citados, o meu mais cordial agradecimento.

Acrescento os nomes de outras pessoas que não são sócios da Associação de Amizade Galiza-Portugal, mas que duma maneira ou doutra contribuíram à redação do livro (e arredores...): a José Luís Fontenla Rodrigues, com quem tantos momentos de entusiasmo e dor pela Galiza compartilhei, e a Isabel Rei, que submete a crítica as minhas mensagens em foros vários: Portal Galego da Língua e Assembleia da Língua, mormente. Neles mostro-me agradecido a todos os que levam adiante, nem sempre com sucesso, a luta em prol da integração da Galiza na Lusofonia. Luta individualizada, que não individualista.

Cito ainda o nome de duas pessoas, professores de universidade, com as que me unem laços de cumplicidade por vezes ambidestra ou ambissinistra. A primeira pessoa é Celso Álvarez Cáccamo, infatigável crítico, em país que pouco quer criticar, e persistente investigador dos usos linguísticos, em Terra cujas línguas apenas são aparentes. (Rogo que estenda o meu reconhecimento à Cathrine). A segunda pessoa, José Luís Rodrigues Fernández, com quem tanto concordo e discordo, é velho conhecido e também professor meu, cuja relação veio a ser beneficiosa para mim e (acho) também para ele

Não me esquecem outras pessoas que sofreram ou sofrem a perseguição do nacionalismo espanhol, sob máscaras diversas. São os amigos que se constituíram no grupo Docentes contra a repressão e denunciaram todas as que, começando por eles, padeceram e padecem os lusófonos, particularmente os lusófonos, nestas partes do Reino de España. Eles não calaram: Suso Peres Bieites, Suso Sanches Sobrado e Manel Zebral Lopes. Outros viram-se obrigados a calar. Não posso condená-los, mas sim devo celebrar a valentia dos que não calam e enaltecê-la e pô-la como exemplo na Terra, nesta «Terra do esquecimento / que alguns dizem Galiza».

Quero evocar os tempos em que tive a ver na AS-PG: Foi nela que começamos a praticar a reintegração. Digo “começamos”, porque então colaborámos Jurjo Torres e José Paz, entre outras atividades, na edição de O Ensino e, antes, na edição das primeiras normas reintegracionistas, aquelas Orientaçóns para a escrita do noso idioma (1982, apesar do Depósito Legal de 1980), em que também participou Santiago Esteban Radio.

Eram tempos de entusiasmo medido, cedo coutado, desde altas esferas nacionalistas assim declaradas. Justificaram as suas medidas por aquilo que costumam dizer sobre a «receptividade do povo» que com certeza nos factos se torna sempre em colaboração objetiva com o projeto-e-processo nacionalizador do Reino de España. (Reconheço que cada vez menos entendo que os presumíveis dirigentes aleguem a resistência do «seu» «povo» a ser dirigido e, simultaneamente, se declarem dirigidos por esse povo que eles destinam a ser por eles dirigido... Não o entendo, deveras.)

Permiti que, a seguir, me detenha em dizer qualquer cousa da AGAL (não peço escusas por isso).

Conheceis que a associaçom nalguma medida surgiu das minhas entranhas; não em exclusivo, of course!, porque foi parto compartilhado: digo parto e não “parida” (ah, as glórias do bilinguísmo desequilibrado!).

Depois de vinte e cinco anos conseguiu logicamente emancipar-se de nós. Com efeito, há tempo que se emacipou de mim (e de outros) ... ou eu, dela. Por isso as nossas relações padecem as ambiguidades do carinho e da dúvida: Não posso negar que contribuí à sua constituição e fiz possíveis algumas das suas atividades, mas também não posso calar que a sua andaina não é a minha de hoje ou, antes, que ela e eu caminhamos hoje nem sei se por vias paralelas ou acaso asintóticas ou acaso sinuosas, em que por vezes coincidimos e por vezes dissentimos, radicais...

Digo da AGAL: tenho bem presentes as relações de amor e desamor que nos reúnem. Nem eles nem eu podemos preterir o facto de eu ter sido co-fundador da Associaçom, membro da Gestora que a pôs a andar e secretário do segundo Conselho, embora cedo demitido por própria vontade. Também não podemos deixar de lado o facto de eu, com Henrique Rabunhal (para mim sempre RabuNHal), ter sido diretor in pectore da revista Agália por mais de dous anos.

Agora apenas me ficam as boas lembranças e o trabalho desenvolvido, apesar de tudo, frutuoso e ainda prometedor. Nomearei alguma das pessoas com que colaborei, na convicção de os mais serem injustamente não citados. Começo por Maria do Carmo Henriques, também co-fundadora e presidenta segunda da AGAL, com que tantas batalhas me ligam; cotinuo por Joám Trilho, tesoureiro musical da Associaçom e Xosé M.ª Monterroso Devesa e Joám Carlos Rábade Castinheiras, secretário fac-totum do primeiro Conselho, e... todos, todos os que iniciamos a caminhada agálica e continuamos nela ou noutra, mas complementar, e mesmo todos os outros que fraquejaram e hoje passaram a atividades mornas, que eles entendem mais produtivas na Comunidad Autónoma de Galicia.

Há muitas pessoas com as quais ao longo destes vinte e cinco anos tive ocasião de ter: os professores brasileiros Celso Cunha e Leodegário de Azevedo Filho, e senhora, ou Beatriz Weigert e Cristina de Mello; os professores portugueses Pires Laranjeira, Amadeu Torres, Maria Rosa da Rocha Valente ou Rui Vieira de Castro; os professores galegos Santamaria Conde, César Morám, Carlos Quiroga, Carlos Garrido...

Ultimamente tive ocasião de comprovar o excelente trato de Vítor Manuel Lourenço Peres, pelo Portal Galego da Língua.

Tenho de evocar as pessoas e a obra dos saudosos professores Rodrigues Lapa, Carvalho Calero e Guerra da Cal e sobretudo a amizade imerecida com que me deliciou o académico Jenaro Marinhas del Valle, Dom Jenaro.

Por fim não esqueço Lluís V. Aracil, cuja obra tratámos no II Seminário de Políticas Linguísticas (Novembro de 2004). Lluís é para mim mestre e guia através dos seus escritos e pela sua palavra. Muito temos conversado telefonicamente e em presença. Espero continuar, embora ele se retirasse destas questões da língua; espero continuar a desfrutar da sua amizade e humor.

A presença de Josep Conill lembra-mo quer pelas semelhanças que existem entre a Comunidade Linguística catalã e a Lusófona galaica, quer pelo seu trabalho na procura de precisão e esclarecimento aos achados aracilianos. Obrigado, deveras.

1.- Feitas, sem excessiva saudade e com menos exaustividade, as evocações sentimentais, passo aos argumentos razoáveis. Começo por fazer explícitos os que eu acho que me induziram a enrolar-me na Lusofonia Galega (desde a Hispanofonia española):

1.1.- PRIMEIRO ARGUMENTO

O primeiro argumento da minha teorização e prática lusófona (melhor digamos “lusógrafa”) resumo-o na expressão que disse espontaneamente numa entrevista, publicada em El Progresso, de Lugo, bem recolhida pela jornalista: «Sou lusista na Galiza pelas mesmas e idênticas razões e motivos por que sou hispanista em Valhadolid».

Sem dúvida, objetivamente, a Hispanofonia de Puerto Rico, face à Anglofonia dos EUA, tem os mesmos alicerces teóricos e práticos do que a Lusofonia da Galiza, face à Hispanofonia do Reino de España.

Tão certo estou desta regra de três (ou de quatro) porquanto foi o próprio Reino a confirmar-ma e firmar-ma, segundo bastantes dos presentes conhecem e lembrava eu o sábado passado em Braga.

Com efeito, em 1993 sofri um expediente disciplinar, incoado pela colaboração duma presidenta da APA em funções, à par do Diretor do IES Salvador de Madariaga e da Inspetora de zona (omito os nomes por desnecessários); dele saí quase indemne, apesar de tudo. O motivo foi eu ter proposto aos meus estudantes do Curso de Orientación Universitaria essa regra de três (ou de quatro) como tema de discussão e exercício prático nas aulas de «Lengua española».

1.2.- SEGUNDO ARGUMENTO

Eu, embora castelhano e espanhol, não estou isento de cumprir os princípios universais da ética ocidental. Estimo que, apesar de tudo, o Reino de España. pertence ao Ocidente pós-cristão, de modo que os seus súbditos estamos submetidos, apesar de tudo, a esses princípios. Seja como for, o princípio ético mais genericamente admitido constuma ser formulado destarte: «Não faças a outro o que não quiseres que o outro faça contigo». Na realidade ecoa ou é ecoado no conselho evangélico: «Ama o teu próximo como a ti mesmo.»

Contudo, ambos, sejam considerados critérios-e/ou princípios e conselhos espirituais até, não podem ler-se nem praticar-se desde a singularidade pessoal solipsista, mas no seio da sociedade por que os humanos somos definidos, no duplo sentido ou acepção de «explicar o significado» e de «demarcar a extensão ou os limites», não com certeza de «decidir dogmaticamente ou decretar».

1.3.- TERCEIRO ARGUMENTO

O terceiro argumento deriva a contrario de particulares condutas. Acho que da minha parte não é reativa, mas exigência de dignidade. Observo os comportamentos dos políticos espanhóis, nacionalistas irracionais, a impedirem que o galego seja português, e necessariamente infiro que, para ser nacional espanhol razoável, devo promover que o galego seja português. De facto, eles promovem que mesmo o sefardita seja castelhano ou espanhol e não «língua de seu».

2.- Declaro que não sou culpável nem deste Seminário de Políticas Linguísticas, como também nada tenho a ver com a seleção dos intervenientes nele. Tudo é mérito e trabalho de Ângelo Cristóvão, com quem coincido no facto de estas atividades (seminário e livro) não constituírem propriamente uma homenagem à minha pessoa, mas pretexto para expandir ideias conducentes à normalização naturalizadora do Português Galego ou da Sociedade Galega Lusófona.

3.- Pouco posso dizer (nem direi) dos amigos intervenientes estes dias de Seminário.

3.1.- Recebam, antes de mais e no que me atinge, o agradecimento pelos seus contributos:

A.- Celso Álvarez Cáccamo, por «Umas notas sobre Estado e Língua», fez uma feliz sistematização dos meus apontamentos ao caso. Interessante e de consequências proveitosas pareceu-me o conceito de «Nação linguística» face ao de «Língua nacional». Não sei se entendi bem, mas acho que a concepção proposta por Celso visa o processo, dinâmico, de nação ou nacionalização ou naturalização da língua, enquanto o conceito de Comunidade linguística parece ficar na situação já conseguida e por isso estática, ou como se assim fosse.

B.- Mário Herrero Valeiro, em «Diglossia: breve percurso historiográfi­co», apresentou sumariamente os diferentes usos do termo (ou, antes, vocábulo) diglossia por uns e outros autores, referindo-o ao contexto ibérico, para me fazer a honra de ele explicar o “meu” conceito não tanto de diglossia, quanto de correlacionamento diglóssico, como condição de normalidade nas sociedades em que habitamos (ou nos habitam), abrigadas sob algum estado e, em particular, a galega, distribuída em três Comunidades Autónomas e em diversos mundos da emigração, segundo mesmo reconhecem os organismos do Reino.

C.- Vítor Meirinho Guede, em «A identidade plenifacética: breve relatório da mudança na identidade linguística dos movimentos cívicos galegos», fez a leitura crítica das propostas sustidas diversificadamente pelas diferentes associações, apesar da formulação a que dizem confluir: “O galego é a mesma língua que o português”. De interesse para sistematizar o que acontece na Galiza pareceu-me a distinção entre os processos de assunção e de teorização, levados adiante progressivamente pelos diversos e sucessivos pessoeiros galeguizadores ou, antes, regaleguizadores.

D.- Martinho Montero Santalha, com «A língua de Cristóvão Colom», libertou-me da minha promessa, incumprida, de publicar um segundo artigo que teria de completar a análise do estudo sobre a língua do descobridor que fizera em tempos D. Ramón Menéndez.

Seja como for, estimei e estimo que o texto menendezista patenteia a irracionalidade do discurso nacional dominante no Reino de España. Com efeito, apenas a falta de lógica rampante pode explicar o razoamento de D. Ramón Menéndez que formulado à maneira (quase) silogística reza:

«Cristóvão Colom afirmou que nascera em Génova. É assim que nos seus escritos redigidos em castelhano, não se rasteja nenhum genovesismo e sim lusismos galegos e portugueses muito abundantes. Portanto dessa abundân­cia de lusismos devemos inferir que era genovês e inclusivamente que em Génova permaneceu até à idade adulta.»

E.- Maria do Carmo Henriquez Salido, a meio de «O contributo de António Gil à AGAL», trouxe à minha memória bastantes acontecimentos já quase esquecidos, desde o fundacional da AGAL no Centro Dom Bosco, reiniciador, na Galiza, do périplo proceloso da Lusofonidade consciente, até outros que as instituições do Reino de España se encarregaram de conflituar. Necessariamente muitos desses eventos integram a nossa história, dela e minha, a que eu não renuncio e de que me orgulho.

F.- Álvaro Vidal Boução, em «Da modernidade (em Política e Literatura) ou de resíduos entre ruínas: António Gil Hernández leitor de Amado L. Caeiro», coloca o escritor e o autor em confronto desigual. Com certeza não sei quem é quem nem se o corporeizado se acha no virtual como imagem refletida no espelho; mas qual é o espelho em que um e outro se revêem? Álvaro, porém, desmascarou-me ou desmascarou-o com subtileza, envolvida numa desmesura de apreço, que é /acho) a melhor maneira de submeter a crítica as pessoas e as cousas, inclusivamente os textos.

G.- Xavier Vilhar Trilho, a través de «O conceito de notabilidade na obra de António Gil», persegue os perfis dum conceito mal delineado, por escassamente delineável, porquanto os “notables” costumam perpetrar o seu trabalho mercê de sub-repções e aos torcícolos. No que eu me sinto capaz, entendo que o labor do notável soma, confusamente, diagnose e prognose na análise e na atuação sobre a sua realidade, total, a da sociedade que “notablece” e a do entorno em que as pessoas moram, habitam e mesmo por vezes vivem.

H.- Josep Conill, em «Quan el parlar ofega el dir: (Consideracions sobre la situació lingüística del País Valencià d’ençà de la creació  de l’Academia Valenciana de la Llengua», tem o mérito acrescentado de oferecer aos galegos a possibilidade de verem o que há do outro lado do espelho: justamente o mesmo e idêntico que eles deveriam ver deste lado:

* a balcanização idiomático-dialetal que os nacionalistas espanhóis, inimigos da balcanização administrativa, promovem justamente para que esta não se produza;

* a contraplanificação linguística, por que esses mesmos nacionalistas evitam a desnormalização dos usos da sua língua nacional;

* o desequilíbrio, mesmo psíquico, que os “notables” incutem nos ainda embrionários notáveis por meio da bipolarização patológica do duplo ligame, aliás, preciso em toda e qualquer comunicação humana.

3.2.- Devo igualmente agradecer os contributos d amigos como:

I.- Carlos Durão, em «Igreja galega ou igreja espanhola na Galiza?», toca um tema altamente estimado por mim por duas razões correlativas e patentes na Galiza: Por ser arma total (e letal) do apagamento da Lusofonia popular e por evidenciar a confluência de objetivos entre os dous poderes em aparência antagónicos.

J.- Manuel Zebral, a respeito do «O contributo de António Gil», levanta uma questão espinhenta pela falta de correção política que arrasta. Se o nacionalismo galego é nacionalismo, deve ter como meta, mais ou menos longínqua a elevação da nação a estado. É caminho que conhecem bem os nacionalistas que já o percorreram, e que por isso se opõem com unhas e dentes aos que ainda talvez nem o começaram, não seja o diabo que lhe-lo arrebatem ou mínguem. Mas qual será o estado-meta dos nacionalistas galegos? Eis a questão espinhenta a que Manel tenta dar resposta, à partida, carente de toda a correção política.

K.- José Luís Fontenla, em «A visão sociolinguística e antropológica das línguas em Luís Polanah», lembra a pessoa e obra do saudoso professor, amigo da Galiza, mas antes de mais amigos dos amigos, que falesceu recentemente em Braga.

3.- Passo por fim a dizer qualquer cousa do livro, Temas de Linguística Política, a começar pela história da elaboração, a seguir pela exposição —breve— do conteúdo e a acabar pela explicação dos motivos que me induziram a adir textos, supérfluos em aparência.

3.1.- HISTÓRIA DA ELABORAÇÃO

Narro-a muito sucintamente na advertência introdutória que intitulo «Nótula à Revisão»:

Vagamente lembro que, lá, por volta de 1994, apresentei a primeira redação do texto ao «Premio de investigación lingüística e literaria» do IV Certame Carvalho Calero, que organiza o Concelho de Ferrol. Logicamente não foi premiada, talvez porque nem naquela nem nesta redação procuro investigar nenhum facto politicamente nem correto nem incorreto. Apenas me aventuro a comentar faces da situação idiomática galega antes por mim ignoradas (ou quase). Exponho-as com o intuito de que outros, cientistas, sábios ou teorizadores, investiguem (e completem) dados, discutam teorias (quase nem esboçadas neste texto), compartilhem (ou não) opiniões e o que houver de saberes: destarte talvez logrem fazer ciência a partir do que nem alcança o rango de experiência arrazoada. Aquele texto de 1994, revisto em 2001, dormia na gaveta à maneira de gato mimoso, mas neste ano 2005 disseram-me que podia tentar a sua publicação. Obediente, revi, mais uma vez, o texto e completei, com poucas mudanças, a redação primeira.

Tentarei explicar melhor:

Sou (e não apenas me considero) um simples amador. Olhai que não digo “singelo”, mas simples. Porque sem dúvida evidencia simpleza, minha, procurar entender o que acontece no Reino de España e sobretudo nestas partes do Reino de España; que vale por tentar, como acima apontei, compreende, no campo das ideias, por que é que não existe na formalização e nos usos de Galego a proporção que sim distingue a formalização e os usos, correspondentes, de castelhano, para a seguir fazer propostas genéricas que conduzam a efetivar a formalização e os usos de Galego, proporcionais com os de castelhano.

Bem sei que o Galego é língua «autonómica» e que o castelhano é a Língua Nacional do Reino de España, mas também conheço o que por âmbitos das diferentes universidades, «autonómicas» ou não, se espalha como doutrina incontornável, que o “galego” é tão língua como as mais... Afirmações desse género escutei, há muitos anos, ao que daquela era o meu professor de Filologia Românica, D. Constantino García, também então Chefe ou Diretor do ILGa e depois secretário da Real Academia Galega. Não podem pessoas sábias e importantes como ele mentir. Portanto, se o “galego” é língua como as mais, sem dúvida terá de funcionar como as outras línguas. E, por não me expatriar, pensei, só pensei, que, segundo dizem essas pessoas sábias e importantes, o Galego, no território em que é «lengua propria», tem de desenvolver as mesmas e idênticas funções que verifica o castelhano no Reino de España, em que é propriamente «lengua nacional».

É desde essa crença, ingénua e simples, que comecei a matinar e observar e vice-versa, observar e matinar. Decidi fazê-lo, de vez em vez, por escrito.

Logrei que as muitas surpresas já nem me surpreendessem. Nem sequer naquela memorável ocasião, em que, conseguido de vez um posto de professor de Lingüística General no Colégio Universitário de Lugo, o Prof. Iglesias Feijoo, diretor do departamento universitário a que eu pertencera e de novo podia pertencer, me recomendou que mudasse de direção (de objeto) a minha atividade investigadora. Eu, estranhado, perguntei-lhe a razão do seu conselho. Disse-me que porque poderia concordar adequadamente com a seguida pelo Departamento de Lingüística General (ou rótulo parecido). Inquiri se o Galego, sendo língua, poderia ser objeto de investigação nesse Departamento. Respondeu de maneira que devi entender que não, que não pode ser objeto das investigações que se verificam sob a ombrela da Linguística Geral.

E inferi, mais uma vez: «Portanto, o Galego não é língua nem sequer para os responsáveis da Universidade de Santiago de Compostela, já então capital de “Galicia” autonómica.»

Contudo, persisti em redigir textos nos quais à partida considero língua o Galego, tão língua que comecei a chamar-lhe português da Galiza e português galego, segundo vi que assim o denominavam outros, como os amigos Martinho e Celso. Mas —eis a dúvida nada metódica em que desde a altura estou submerso—, procedendo assim, serei cientista, os meus textos podem ser estimados científicos?

Comprovei, quase experimentalmente, que os meus escritos (de então e portanto de hoje) não cabem no quadro ciência, nessa ciência que segregam os Departamentos das chamadas Ciências sociais não apenas das Universidades espanholas assentes na Comunidad Autónoma de Galicia, mas talvez de nenhuma universidade espanhola e acaso do mundo mundial.

Apesar de observar e analisar como é que a gente se conduz em sociedade, os sociólogos negam que os comportamentos linguísticos possam ser objeto dos estudos sociológicos. Igual acontece com os psicólogos e outros “logos”, examinadores do “psiquismo” humano e mesmo animal: os comportamentos dos bilingues (ah, sim, bilingues) nas sociedades declaradas administrativamente bilingues, não merecem estudo específico, quer dizer, complexivo das causas e consequências políticas desse torcedor, desviante e forçado bilinguísmo.

E que dizer de toda a retórica vácua que derrama (no sentido que quiserdes) a chamada ciência política?

Descobri que, fazendo o que fazia e produzindo os textos que produzo, sou apenas amador. Por isso reivindico esse título e honra:

Amo a Galiza, o Galego, o Português galego da Galiza, as gentes que ainda ou já estimam que a sua língua é nacional, nacionalizável e mesmo universal, «extensa e útil».

Que outros argalhem ciência sobre as falas e mesmo sobre os arumes arpados dos pinheiros, que eu fico a elaborar textos amadores, só amadores...

3.2. EXPOSIÇÃO —BREVE— DO CONTEÚDO

Vou ser leve ou grave, como se quiser... Foi levidade ou graveza o facto de, durante os anos da introdução do “galego” no ensino e na administração espanhola, o diretor da Real Academia Gallega de La Coruña fosse de vez delegado ou representante de la nación española na Comunidad Autónoma de Galicia? Eu entendo que foi muito grave, mas também grandemente esclarecedor, tão esclarecedor que poucos tiraram as consequências pertinentes.

Apenas vou comentar, em leitura breve e leve, os capítulos do livro a partir dos títulos talvez engraçados, mas procuradamente expressivos do que quis explicar neles. Fazer isto pode ser grave e até revoltador; contudo, sim tentei que a leitura do livro incite à revolta, e agite e subleve e mesmo cause indignação.

Mas comecemos:

3.2.1.- No Capítulo Primeiro, que intitulo Prologuinho petiscante: Pensar a Lusofonia, de facto petisco os temas que tento desenvolver nos restantes do livro e nos livros que talvez possam seguir. Para além das referências às duas propostas, antagónicas, reciprocamente excluintes, de normalização naturalizadora do idioma galego, a lusofónica e a isoladora, assinalo três faces da língua intencionalmente distribuídas num progrediente processo abelardiano per sic et non, mercê do qual oponho a língua, enquanto construto abstrato, à língua, como meio de integração social e política, ou sociopolítica, e neste, por sua vez, como instrumento comunicacional e símbolo identificador.

Entendo que as três faces (ou duas, sendo dupla a segunda) são interdependentes, de modo que o estudo e análise e consequente formalização da língua se acha em correlação dialética da sua verificação no dia a dia que tanto conjunta a sociedade quanto a simboliza e identifica, para além da vontade explícita dos seus utentes.

3.2.3.- No Segundo, Capítulo fundamental: Conceito de diglossia, explico o que, a meu ver, constitui o cerne da correlação apontada, porquanto a variedade superior, definida, delimitada ou limitada, como padrão, acarreta um processo de formalização continuada, quer dizer, de análise e estudo das variedades inferiores e da sua consequente elaboração e conformação. Sei que reduzo em excesso a sistematização proposta, se insisto em identificar a variedade superior com a realização escrita da língua e as variedades inferiores, com as realizações orais, incluídas as utilizadas pelas classes dirigentes (ou dominantes), mormente cultas. Mas acho obrigada essa redução para poder entendermos que é o que acontece na Galiza relativamente a Comunidades de Fala e de Língua normais.

Para além, toda e qualquer realização oral acha-se coutada pelos traços (ou circunstâncias) que definem o indivíduo que a verifica: quer de lugar, quer de classe, quer de profissão e mesmo de afeição.

Tenho de advertir que em Temas de Linguística Política considero o conceito de diglossia relacionado com a língua que a melhor tradição ocidental chama literária, quer dizer, a língua utilizada na criação literária, a conjuntar os membros da República literária, universal antes da Modernidade e particularizada depois dela, desde que o estado chamado moderno quebrou a unidade dos esclarecidos na Europa e os dividiu em parcelas, afastados por fronteiras tão artificiais quanto eficazes.

Nas publicações por vir espero analisar direta e abertamente o conceito de diglossia ou de correlacionamento diglóssico do ponto de vista político-administrativo que, aliás, considero o seu fundamento.

Apenas no Capítulo fiducial: Propostas diglóssicas de futuro possível, Quarto, adianto sumariamente alguns dos aspetos ou pressupostos ou consequências.

3.2.5.- Nos seguintes, Terceiro, Capítulo elementar: Literatura Nacional e Normalização, Quinto, Capítulo explorante: Diglossia, Normalidade, Literariedade Vanguardista., Sexto, Capítulo estimulante: Língua literária e identidade nacional, e Sétimo, Capítulo caraterizador: Língua literária ou nacional, tento comprovar, genericamente, como é que nas práticas literárias levadas adiante na Galiza, mormente na Comunidad Autónoma de Galicia, é verificado o conceito quer de língua literária quer de língua nacional.

Em particular, no sétimo capítulo, a partir do conceito de Língua literária e República literária e sobre o modelo da formalização do Galego-Português ou do Português-Galego, tanto tem, levada adiante pelos gramáticos do Renascimento de do Barroco, nomeadamente por Duarte Nunes de Leão, examino os critérios que poderiam ser aplicados às falas galegas (aos falantes galegos) na procura da nova universalidade, da «língua extensa e útil», que dizia Castelão. Ainda mais, acho que essa tentativa já foi realizada por João Manuel Pintos Vilhar, embora os seus modelos fossem os renascentes castelhanos Ambrósio de Morales e Fr. Luís de León, como expressamente o reconhece na «Foliada 3.ª» da sua Gaita gallega.

3.2.6.- No Oitavo, Capítulo hesitante: Os direitos humanos [desde a Galiza], e no nono, Capítulo desvelador (ou debelador): Um «Programa» demudado, analiso o quadro constitucional espanhol e legalidade dele derivada para comprovar que nenhum preceito proibia, na altura (1977-1980), que as falas galegas fossem cobertas pela padronização histórica e tradicional lusógrafa. Apenas foi por intromissão da ideologia nacionalista (ou acaso patrioteira), dominante no Reino de España, mesmo contra a legalidade nele vigorada, que foi imposta autoritariamente a castelhanização gráfica do “galego”, configurado já como lengua independiente do português ou «lingua de seu», formal e funcionalmente subsidiária da «Lengua nacional del Reino de España».

3.2.7.- Por fim, nos últimos capítulos, Décimo ou Refletente: Concepções nacionais e Literatura, Undécimo ou Prometente: Concepções literário-nacionais e Duodécimo ou Chointe ou Abrideiro: Singelamente lírico, procuro sistematizar a proporcionalidade anunciada entre o nacional português e espanhol e o nacional galego. Sirvo-me de três escritores notáveis nas respetivas nacionalidades:

A) De Mariano José de Larra tomo a sua (ou minha) consideração da nação como matriz comunicacional, mormente às práticas literárias.

B) Emília Pardo Bazán amostra-nos que a nação-estado legitima o uso nobre da língua, por isso mesmo, nacional.

C) José Maria Eça de Queiroz evidencia-nos que a nação e o estado são realidades diferenciadas, de modo a poder existir a uma sem o outro e vice-versa.

E acabo com as reflexões, seriosamente líricas, do Fernando Pessoa, que contrasto comparativamente com outras equivalentes de Daniel Rodrigues Castelão. As palavras finais do livro são justamente estas do político galego:

Ningunha outra nacionalidade hespañola —nin Cataluña, nin Euzkadi— oferecen un porvir tan estenso como Galiza, cando pensamos que a nosa lingua sirve para comunicarnos con máis de sesenta millóns de almas e cando, xunguidos en esprito i en verdade a Portugal, podemos instaurar unha fórmula irrecusable de imperio, todo luz e todo humanidade. A Hespaña oferecémoslle a nosa cibdadanía e todal-as posibilidades do noso progreso material, xunto coa ledicia do noso benestar e o servizo que a súa grandeza reclame de nós, porque Hespaña será o Estado; pero a Portugal oferecémoslle o noso xenio creador e todal-as posibilidades da nosa renascencia espritual, xunto coa ledicia da nosa liberdade e os esforzos que a súa autonomía moral reclame de nós, porque Portugal será a Nación. (Livro III, XXIV, 1961. 1995: 365).

4.- Poderia acabar com essas palavras castelanianas, mas permiti que esclareça sucintamente os motivos por que acrescento ao livro o Addendum, no qual re­escrevo o prefácio a A luz ressuscitada, que publicou a AGAL. Fi-lo “apenas” em razão do carinho e estima que tive por Manuel Maria, cujo cabo de ano quase coincidia com o final da preparação do livro. Sei que em aparência, numa primeira consideração, dissona no conjunto do livro, mas o leitor atento terá de concluir que faz a completo parte dos temas estudados nele, como se constituísse um jeito de comprovação experimental a respeito tanto dos notáveis quanto da produção literária na Galiza.

O livro integra, fora de paginação, um Avanço da seguinte obra que será dada a lume em data incerta, espero que não se alargue às calendas gregas. Aí anuncio assuntos que, com maior coerência que a seguida nos expostos em Temas de Linguística Política, penso examinar:

1.- A Galiza: correlacionamento diglóssico deslocado, a que se referiu Mário Herrero na sua comunicação.

2.- Dimensões do processo normalizador (ou naturalizador), que reduzo a quatro, na realidade, dous, correlativos das ações do Estado e das atividades cívicas, quer dizer, emanadas das ditas relações de poder (coativo e portanto violento) e das relações de solidariedade (ordenadora e participativa, a compartilhar interesses e responsabilidades).

3.- Desnormalização da Comunidade Lusófona da Galiza levada adiante pela aplicação restrita do art. 3.º da Constitución española (1978).

4.- Razão de Estado (ou sem-razão estatuída): É texto em que comprovo quase experimentalmente que a análise gramatical e léxico-semântica do citado art. 3.º se corresponde com a prática institucional espanhola, referida ao denominado «poder judicial», mas prolongável aos poderes legislativo, de que emanou o artigo citado, e ao executivo, que o aplica do modo mais restrito e exclusor.

Com este anúncio acabo. De novo obrigado a todos vós, aos citados pelo seu nome e aos não citados, aos presentes e aos ausentes que desejaram não o estar.

Obrigado e até sempre, amigos.