II SEMINÁRIO DE POLÍTICAS LINGUÍSTICAS da Associação de Amizade Galiza-Portugal

Santiago de Compostela, 24-25-26 Novembro 2004

 

Josep Conill Ripollès:

 

"O contributo de Lluís V. Aracil" (Resumo)

 

 

      Há pelo menos duas formas de apresentar o contributo de Lluís V. Aracil à sociolinguística. A primeira, especialmente adequada para descrever a obra daqueles autores que dedicaram o seu esforço e talento à lavra de uma parcela delimitada do saber, consiste em enfocar a questão do ponto de vista estrito da história da ciência, salientando aqueles conceitos e delineamentos teóricos que têm deixado uma pegada mais importante e que têm sido objeto de maior atenção por parte do mundo académico. Este ponto de vista resulta muito menos recomendável em troca, quando, em vez de ajustar-nos ao âmbito de uma só disciplina, o autor estudado se carateriza por uma trajetória pessoal a través das disciplinas e a sua obra se institui de forma muito consciente numa instância de denúncia da mesma especialização. Então, semelha preferível a adopção de uma estratégia diferente, que, sem desprezar a importância dos vínculos disciplinários adoptados pelo autor, não perca de vista o senso global da sua obra.

      No tocante a esta questão Aracil foi sempre muito explícito: o núcleo central da sua reflexão gira à volta da comunidade, concebida desde uma perspectiva que ultrapassa o âmbito meramente étnico, para centrar-se sobretudo nos aspetos comuns que permitem a articulação daquele vasto universo de sentido que chamamos Civilização Europeia. Estas duas realidades distribuem-se, conforme a um critério ordinal, em duas esferas: a do falar e a do dizer. O falar tem a ver com as manifestações ordinárias da linguagem, ligadas a umas coordenadas contextuais concretas, e engendra o grau zero da vida comunitária, constituída pelos grupos étnicos (as nationes), cristalizadas à volta da língua materna e a quotidianeidade compartilhadas. O dizer, por sua vez, é – conforme a F. Bollnow – a palavra em que “se condensou o sentido do discurso numa configuração salientável que, uma vez produzida, permanece, é transmissível na sua forma dada e vale como pauta para o futuro”. Dito de outra forma: identifica-se com os usos especiais da palavra que, além do âmbito estritamente étnico, configura a Civilização.

Qualquer sociologia da linguagem que levar em linha de conta, seriamente, esta dupla articulação idiomática da vida comunitária deverá constituir-se em tentativa de explicação da totalidade, mesmo se tal delineamento implicar a reformulação de começo a fim dos pressupostos categoriais em que assenta a disciplina, tratando-os desde uma perspetiva netamente processual, onde a inovação epistemológica se combina com o exame da dimensão histórica dos fenómenos. O detalhe não é banal: trata-se, para além de qualquer afectação erudita, de resgatar do esquecimento o sentido de uma história que tem sido suplantada pela imemorialização da superstição. O melhor exemplo deste enfocamento araciliano achamo-lo no seu modelo explicativo ternário da minorização linguística, articulado à volta das noções de interposição e intrusão, por meio dos quais se explica a presença de uma língua que marginaliza o idioma minorizado da comunicação com as outras comunidades linguísticas e, ao mesmo tempo, capilariza a comunidade minorizada, curto-circuitando o normal funcionamento da sua língua. Destarte, a instauração da língua nacional aparece simultaneamente como responsável pela desligação com o exterior e pelo desconcerto interior das comunidades linguísticas minorizadas.

      Como é lógico, a descoberta da centralidade da língua nacional apresenta-se acompanhada de importantes mudanças na perspetiva observacional, que adopta um enfocamento ecológico, destinado a incluir o contexto em que este fenómeno tem lugar. A descrição e subsequente explicação íntegra da minorização linguística requererá, então, a adopção de um ponto de vista de rango superior ao que dimana das duas partes implicadas no processo. Por outras palavras: deverá ser construída uma observação de segunda ordem, capaz de permitir ao mesmo tempo observações sobre a dinâmica processual e os discursos que a ele são consubstanciais, porque só assim estará finalmente em condições de obter-se uma visão coerente. É por isto e não por qualquer outro motivo que o nível de meta-realidade desde onde Aracil traballa a partir deste momento se identifica - acho que de maneira acertada -  com o âmbito da Civilização Europeia que, como temos comentado anteriormente, é o âmbito do dizer.