APRESENTAÇÃO DO LIVRO TEMAS DE LINGUÍSTICA POLÍTICA, DE ANTÓNIO GIL

MÁRIO HERRERO

 Ato incluído na programação da «Semana da Galiza em Braga»

 Braga, 25 de Março de 2006


 

         Boa tarde e muito obrigado pela vossa presença. Chamo-me Mário Herrero e estou aqui para apresentar o livro Temas de Linguística Política. Seguido dum avanço de Política Linguística. Leves reflexões sobre política nacional “española”. É este, acho, um brevíssimo título para uma obra que diz muitas coisas, das quais apenas poderei mencionar alguma.

 

          Este livro é a segunda publicação de alta qualidade editada pela Associação de Amizade Galiza-Portugal em dois anos, após o magnífico Do Latim às Línguas Nacionais. Introdução à História Social das Línguas Europeias, de Lluis V. Aracil. Comecemos pronunciando algumas palavras sobre o percurso vital e académico do autor da obra que agora nos ocupa, o Professor António Gil Hernández.

 

1. A figura intelectual de António Gil Hernández.        

António Gil Hernández nasceu em 1941 em Valhadolid (Castela – Espanha) e chegou à Galiza já na sua idade adulta, em 1968. Estudou na Faculdade de Filosofia e Letras de Santiago de Compostela, onde se gerou o seu interesse pela língua e pela cultura do país. Licenciou-se em 1973. Desde o ano de 1978 reside na Crunha. Durante 12 anos, foi professor no que foi conhecido como Colégio Universitário da Crunha, ads­crito na altura à Universidade de Santiago de Compostela e, ao mesmo tempo, professor no estabelecimento de ensino secundário “Salvador de Madariaga”, onde ainda desempenha as suas funções docentes. Durante os últimos trinta anos tem desenvolvido um trabalho, prático e cívico, de investigação sociolinguística, muito intenso em alguns momentos, mais relaxado, embora nem menos produtivo, nos últimos anos. É sem dúvida um dos mais importantes pensadores sociais galegos e, em minha opinião, o mais importante autor do campo social e intelectual que na Galiza formamos aqueles que defendemos a unidade linguística galego-portuguesa. E acho que é precisamente por isto pelo que tem sido sistematicamente censurado, ocultado ou preterido na Galiza, mesmo, infelizmente, dentro do próprio campo reintegracionista. O seu olhar, os seu olhares, são incómodos, o seu estilo incomoda, a sua insistência perturba, a sua presença mesmo importuna... É, acho, um intelectual crítico, desculpem-me as palavras, e isso hoje nem é tolerável dentro dos campos sociais que se querem imaginar críticos, que se imaginam contra-poder porque sonham com ser poder. O campo reintegracionista como perfeito exemplo. Além do mais, ele é um intelectual crítico que nem tira grandes benefícios da sua actividade crítica. Isto é, ele não é um Chomsky. Não é, portanto, o crítico do Sistema de que tanto precisa esse mesmo Sistema. Será certo que, como se diz na badana do livro, “o seu devotamento ao bem público constitui um modelo e referente notável”? Se eu acreditasse na existência de um “bem público”, mesmo diria que é verdade. E como se diz nessa mesma badana, com palavras que me parecem muito justas e das quais me aproprio agora, “a pessoa e a obra de António Gil podem ser apresentadas, nalgum sentido, como arquétipo do labor intelectual, em que se verifica simultaneamente o compromisso da análise rigorosa da realidade, a participação na questione della lingua em defesa do português galego, e a intervenção social, porquanto faz parte, há décadas, de movimentos cívicos e culturais” galegos. Assim, é membro da Associação de Amizade Galiza-Portugal, da qual foi secretário e presidente. Em 1981 foi co-fundador da Associaçom Galega da Língua e durante anos participou activamente nas suas actividades: congressos, revista, publicações. Participou, também, nas Irmandades da Fala da Galiza e Portugal e na Associação Sócio-Pedagógica Galaico-Portuguesa. E como se diz ainda nesse mesmo lugar: “Cumpre salientar nessas suas actividades o facto de se afastar procuradamente de contendas partidaristas”. É certo: conheço poucas pessoas, muito poucas, com um comportamento tão insolentemente independente como o Professor Gil Hernández. E isso, acreditem, na Galiza não se perdoa.

 

          Continuo através do texto citado: António Gil Hernández é, ou foi, colaborador, entre outras, das revistas internacionais Cadernos do Povo, Nós, O Ensino, Temas do Ensino e Agália, e participa habitualmente em congressos e encontros nacionais e internacionais sobre a língua portuguesa na Galiza. É um decidido promotor do discurso da unidade da língua, faz parte da Comissão Galega do Acordo Ortográfico. Juntamente com José Luís Fontenla Rodrigues, integrou a Delegação Galega no Encontro de Unificação Ortográfica de 1990 em Lisboa. Possui uma vasta obra sociolinguística (ou talvez é possuído por ela), em que se destacam o livro Silêncio ergueito (1996) e agora esta nova obra, para além de um grande número de artigos de diversos alcance. É autor também de artigos de crítica literária e ainda de livros de poesia, como Baralha de sonhos (1985), Luzes e espírito (1990) e Do amor de tudo quanto é livre (1991). A sua bibliografia completa pode ser lida na brochura recentemente edita pela Associação de Amizade Galiza-Portugal.

 

         Farei agora um comentário muito mais pessoal. Ainda que eu realizei o ensino secundário no liceu Salvador de Madariaga, o mesmo em que trabalhava e trabalha o Professor, não conheci António Gil Hernández até uns anos mais tarde, quando eu estudava Filologia, primeiro na Crunha e depois em Santiago de Compostela e, acho, ele já tinha sido democraticamente banido da Universidade. É o que tem a democracia, que permite banir, censurar, castigar... e até matar, fisicamente ou intelectualmente, mas sempre de forma democrática. É o poder das palavras. Acho que alguma coisa tenho aprendido dele. Sem me ter dado aulas, considero-o em certo sentido professor meu. De facto, foi uma das pessoas mais importantes na minha determinação de trabalhar na sociolinguística. Agora, com os anos, não sei se agradecer-lho ou reprovar-lho... Mas cada um deve assumir os seus próprios erros.

 

2. O enquadramento da obra sociolinguística de António Gil Hernández.        

          Permitam-me agora entrar num discurso um bocadinho mais técnico para enquadrar a obra sociolinguística e socioliterária do Professor Gil Hernández, que, em minha opinião, atinge agora o seu ponto culminante (que não final) com a publicação da obra que hoje apresentamos. 

Durante décadas, a análise sociolinguística foi realizada “a partir de fora” dos contextos sociolinguísticos analisados: países subdesenvolvidos em processo de descolonização, zonas plurilingues, comunidades marginalizadas, processos de substituição linguística... Tratava-se de investigadores externos, aparentemente neutrais, paradigma da sociolinguística não militante ou não “comprometida”. Terá de ser no interior de alguns contextos em que se gera um conflito resultante da existência na mesma comunidade de línguas com diferente estatuto sociopolítico e de grupos de falantes da língua social e legalmente desfavorecida que tomaram consciência crítica da subordinação e que se revoltam contra ela, onde irá surgir uma análise sociolinguística realizada “a partir de dentro”. Assim aparecem analistas pertencentes ao que Louis-Jean Calvet chamou de sociolinguística nativa ou Mauro Fernández, de sociolinguística periférica (ou o que ainda antes Lambert-Félix Prudent reconhecia como linguística nativa). Os encarregados de criar esta nova sociolinguística militante ou “comprometida” serão intelectuais catalães e valencianos, ocitanos, galegos ou procedentes de situações língua crioula-língua colonial (especialmente na Francofonia). Trata-se de pessoas inseridas na realidade estrutural dos seus próprios países e falantes da língua dominada, embora necessariamente bilingues. O analista que, a partir do exterior, só descreve e interpreta (a sociolinguística teoricamente “não-militante”), é substituído pelo analista que, além do mais, vai intervir de forma consciente. Surge deste modo um novo analista glotopolítico (a sociolinguística “militante” ou engagée) que se erige em representante de uns determinados grupos sociais, normalmente proto-elites ou já elites de um nacionalismo dominado autoerigidas em representantes populares. Este novo analista vai realizar uma determinada função sociopolítica com a intenção de, a partir da não aceitação da realidade em vigor, que desfavorece tanto a sua língua (elemento básico do imaginário nacional) como a sua própria posição estrutural como elites dominadas, intervir sobre a sociedade da que se faz parte para tentar a subversão do estado de coisas e a criação de uma nova realidade sociolinguística como parte de uma nova realidade sociopolítica. Nasce assim uma leitura ideológica, militante, da sociolinguística como ciência nacional ao serviço, mais ou menos crítico, de um processo de construção nacional, que irá caracterizar o discurso sobre a língua, a política linguística teórica e, por fim, nos casos em que se pôde implementar (Catalunha, Euskadi, Quebeque), a planificação linguística gerada por ideologias nacionalistas dominadas no conjunto do Estado mas que passam a ocupar o espaço dominante nas suas próprias comunidades. 

Assim, no Estado espanhol, conjuntamente com estudiosos de diversa categoria intelectual e independência partidária como Aracil, Ninyoles, Sánchez Carrión ou os galegos Francisco Rodríguez e Pilar Garcia Negro, situa-se a figura de Gil Hernández, talvez menos conhecida no conjunto do Estado e na própria Galiza por causa da sua ideologia reintegracionista e pelo seu próprio carácter raivosamente independente. E talvez também pela dispersão da sua obra, agora em parte felizmente reunida neste livro. Porém, acontece que António Gil Hernández não é galego de nascimento, mas castelhano, espanhol, desculpem mais uma vez a palavra. Portanto, ele podia ter sido talvez um Ferguson, um Fishman ou um Haugen a observar os colonizados galegos do extremo do seu telescópio... ou do seu microscópio. Porque então perder tanta energia e sofrer a discriminação e o esquecimento nesta batalha de décadas? Porque se compromete ele muito mais do que a maior parte dos galegos? Poderia eu dar alguma resposta, mas prefiro que seja ele quem o faça. Se quiser, claro. 

3. O livro: alguma notações. 

Para finalizar, acho que estou obrigado a dizer alguma coisa do livro. Mas provavelmente isso é o que já o tenho feito. Porque falava antes de como o olhar do Professor Gil Hernández é incómodo. E este livro é um magnífico exemplo disso. Estamos perante uma visão de conjunto do seu discurso sociolinguístico e socioliterário, e não apenas. Uma visão que unifica a sua teoria sobre a Língua Nacional e a Literatura Nacional. Com a Galiza como foco e, como analista que intervém e não apenas opina, com propostas de futuro. Parece-me um livro com um discurso extremamente claro. Mesmo reconheço que fiquei surpreendido por tanta claridade em alguém que gosta da sintaxe complexa e dos -por vezes retorcidos- jogos de palavras. Ninguém poderá dizer que esta é uma leitura difícil, mas talvez o contrário, acho que estamos perante uma leitura demasiado fácil. E talvez por isso demasiado difícil de digerir, mesmo de dentro do reintegracionismo. 

Permito-me propor uma leitura dos dez primeiros capítulos, como núcleo básico do livro e onde se apresentam os conceitos básicos e a sua aplicação ao contexto galego: os discursos em conflito, o papel das elites galegas, a normalidade e anormalidade sociolinguística, a Lusofonia, a diglossia, a comunidade linguística, a língua nacional e a literatura nacional, os direitos humanos, o Estado... Considero que os outros capítulos e a adenda podem ter outro tipo de leitura, complementar, mas não secundária. Do ponto de vista reintegracionista, acho que estamos perante uma óptima apresentação do conflito linguístico e sociolinguístico galego através dos discursos gerados, uma apresentação altamente didáctica e bem exemplificada do ponto de vista textual. 

Obviamente, há muitos aspectos sobre os quais podemos e devemos discutir: a definição crítica do que é o “normal” e a “normalidade” e as suas implicações para um discurso de resistência, a insistência na questão da uniformidade do padrão, a falta de autocrítica sobre as implicações sociopolíticas do modelo diglóssico apresentado e defendido, a necessidade de modernizar algumas partes do discurso com bibliografia mais actualizada, etc. Talvez o próximo livro que anuncia, o Temas de Política Linguística, que eu diria de Glotopolítica, sirva para isso. De facto, devo dizer que a minha leitura muito positiva da obra de Gil Hernández e deste livro em particular está feita também sobre a base de discrepâncias na teoria e até na prática. Talvez a grande riqueza do reintegracionismo galego, ainda muito minoritário socialmente, seja a variedade de perspectivas críticas que engloba numa sociedade cada vez mais uniformada ideologicamente. Talvez a questão de “sermos poucos e ainda nos levarmos mal” não seja necessariamente um pecado, mas uma virtude. Um sintoma de estarmos vivos. Mas para isso devemos esquecer os nominalismos e centrar-nos decididamente nas ideias e nas propostas de trabalho. Acho que poderemos discutir também sobre isto. 

Concluo. Espero que o Professor Gil Hernández continue a analisar, de forma comprometida, o rosto sociolinguístico da Galiza. E a propor soluções para evitar mais um genocídio linguístico: o limpo genocídio democrático do português na Galiza, o extermínio do galego como hipótese ainda não verificada de língua nacional. Na Galiza vivemos num paradoxo: existe uma língua que ninguém está obrigado a conhecer, mas que deve ser escrita de uma forma determinada, com as letras doutra língua que é de obrigado conhecimento, mas que ninguém obriga a escrever de uma forma determinada. Paradoxos da democracia. Com certeza, há realidade sociolinguísticas até mais estranhas no mundo. Em Vanuatu, um pequeno estado insular do Pacífico, o crioulo é a língua nacional, mas o seu ensino está proibido. Talvez o português venha a ser algum dia língua nacional da Galiza. Provavelmente quando já não seja um problema político para a Espanha e para as suas elites. No entanto, espero que o Professor Gil Hernández continue a importunar com os seus olhares incómodos sobre a Galiza, os galegos e as galegas. E sobre Portugal, os portugueses e as portuguesas. Muito grato pela vossa atenção.