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III SEMINÁRIO
DE POLÍTICAS
LINGUÍSTICAS "25 ANOS DE ATIVIDADE CÍVICA, INVESTIGAÇÃO E DISCUSSÃO SOBRE A LÍNGUA NACIONAL: O CONTRIBUTO DE ANTÓNIO GIL" |
Igreja
galega ou igreja espanhola na Galiza?
Na
catedral (de Westminster) vocatus
atque non vocatus Deus aderit
Aqui
é o silêncio: a paz, nas
abóbadas o mistério, na
nave a comunhão: o
amor, o perdão. É
a casa de Deus, o sacrário; nas
capelas: mártires da fé. Eis
o pórtico, aberto a todos, para
a salvação do mundo. Aqui
tocamos fundo, desde
aqui recomeçamos, com
confiança, na boa nova, em
dignidade, livres… [Mas
o que fez a tua Igreja na
minha Terra? Era
isso o que Tu querias? Ovelhas
mansas, sem fala? Não
era para sermos um povo livre, capaz
de falar contigo na
sua língua? Ou
então não era, aquela, a tua Igreja?] No
escuro, Cristo,
encravado num
madeiro, espera… Nesta
velha Terra das romarias tradicionais, dos santuários espalhados pela sua
geografia adiante, dos cruzeiros nos caminhos, onde o povo chão venera os
“seus” santinhos, o São Bentinho do Coto Redondo e mailo S. Câmpio de
Longe, o S. Roquinho com o seu cão, a Santa Marinha de Víncios, a S.
Trega, o S. Mamede e S. Cibrão, S. Eufêmia, S. Amaro, S. Paio e S.
Martinho, S. Telmo e S. Lourenço, S. Facundo e S. Primitivo, S. Olalha e S.
Frutuoso do Berzo..., é esta a igreja galega, ou é a igreja espanhola na
Galiza? E
a devoção popular, que move a gente para as concorridas romarias de S.
André de Teixido, do Corpinho, da Franqueira, S. Comba, S. Baia, a pé ou
até de joelhos, pelos escadórios ensanguentados, com roupa de domingo, ou
de “hábito” penitente, e as longas procissões, as velas acesas no
escuro, os claustros retirados, os conventos, toda a tradição europeia da
Via Láctea ou Estrada de Santiago, desde os tempos de Carlos Magno, depois
Caminho de peregrinos, até com o seu Hino Ultreia da Jakobsland:
“Herr Santiago! Gott Santiago, Ultreia esuseia!”, talvez já ao pé do
monte do Gozo, depois de passar pelo Zebreiro, com o seu milagre do
Santo Graal perdido na noite dos tempos. Como
era aquela Igreja dos primeiros séculos de evangelização, a da invenção
do sepulcro do Apóstolo, a Igreja de Dume e de Britónia, da Galécia, do
reino suevo e do antigo reino da Galiza, a Igreja bracarense, lucense,
compostelana, a que resistiu a invasão islâmica e a pirataria sarracena,
normanda, viquinga, inglesa, a do Codex Calixtinus, do Liber
Sancti Jacobi e a Historia Compostellana, a que deu a Salve
Regina de S. Pedro de Mesonço, a de S. Rosendo e S. Froilão, de Idácio
e de Maeloc, da monja Egéria que peregrinou à Terra Santa, do bispo
“dissidente” Prisciliano e do arcebispo político Diogo Gelmires (com as
suas constantes rivalidades pela jurisdição sobre as dioceses e pela
primacia eclesiástica de Santiago, criador duma marinha de guerra galega),
e mais adiante do crego “social” Basílio Álvares (o abade de Beiro),
do abade de Valadares (João Rosendo Árias Henriques) e do abade do Couto,
que lutaram contra os franceses, a dos foros e do Cura de Fruíme António
Cernadas de Castro, reivindicador da Galiza, e também a do universal Pórtico
da Glória, e mais a da catedral de Lugo (Hic hoc mysterium fidei
firmiter profitemur) com a exposição permanente do Santíssimo? A
igreja dos mosteiros e dos conventos, de Samos, de S. Estevo de Ribas de
Sil, S. Clódio, Osseira e Armenteira, Sobrado dos Monges, de Cela Nova, S.
Martinho Pinário, Oia, Melão, da Ribeira Sacra, Meira, Azibeiro, Junqueira
de Espadanedo, Monfero, Carrazedo, Pena Maior e Monte de Ramo; e ainda a fé
do carvoeiro Cotolai, o que segundo a tradição hospedou S. Francisco na
sua peregrinação a Santiago. (E
era galego o papa João XXII, chamado Pedro Hispano ou Compostelano?) Explica-nos
algo a composição daquela Igreja de abadias, de prioratos, granjas,
rendas, coutos, desmos, da grande ordem de Cluny, do poderoso Cister
(fomentado pelo poder monárquico para submeter o país), dos mendicantes
franciscanos e dominicos, dos beneditinos e as clarissas? A gelmiriana
rivalidade entre a província eclesiástica de Braga (que abrangia boa parte
da Galiza atual) e a de Santiago (que abrangia uma grande parte do Portugal
atual), como também as intrigas do ambicioso bispo de Braga Maurício (que
foi excomungado por ser antipapa)? Ou os rios, como o Lima, que durante séculos
separou dous condados (Portugal e Tui) e duas dioceses (Tui e Braga), como
antigamente o Oitavém e o Sil separaram os conventos lucense e bracarense? Haverá
que buscar a sua decadência no submetimento (religioso e económico) às
instituições eclesiásticas da coroa de Castela no tempo dos Reis Católicos
(com a sua Santa Hermandad, ademais do Santo Ofício da Inquisição),
quando os mosteiros não podiam admitir noviços dos arredores, e pouco a
pouco a maioria dos monges destes mosteiros deixaram de ser galegos para
serem maioritariamente castelhanos? Na
reforma dominicana, que privou os galegos de toda autonomia e de centros de
estudos, e também quando os concílios se celebravam em Salamanca ou
Valadolide? E inclusive os beneditinos tinham a sua casa central em
Valadolide? E por isso os
mosteiros galegos se mostraram reticentes na
aceitação de cursos de artes ou de teologia, em parte porque se lhes
ofereciam para enviar os estudantes dos mosteiros castelhanos, menos
dotados de rendas? Era isto
colonização eclesiástica? E então os ditos populares, que faziam troça
dos monges e frades, e estes mesmos os latinizavam, dizendo que era muito
difícil achar monachus pauper, franciscanus doctus, iesuita verus et
dominicanus humilis? (E até
aquele intento de que S. Teresa partilhasse o padroado do Caminho de
Santiago, que não chegou a coalhar: era questão não só devocional mas
também das rendas do voto de Santiago para os bispos e cabido
compostelanos)? A
Contrarreforma encheu a Galiza de espaços sagros: de inúmeros templos,
capelas, calvários, cruzeiros, petos de ânimas, confrarias, de
obscurantismo e medo teológico.
O verdadeiro milagre é que esse povo conservasse a sua fé durante todos
esses séculos, quando a excomunhão e o interdito, as paulinhas, eram
instrumentos de submetimento a uma Igreja
distanciada, repetidora do
episcopado espanhol, e os galegos aprendiam de memória o catecismo
em castelhano (o Pe. Astete e o
Pe. Ripalda foram professores em Monte Rei), como também os seus rezos; e
muitas vezes, ao batizar um recém nascido, no último momento o crego
mudava o nome galego escolhido pelos pais para outro castelhano (p.ex.
Domingos passava a Domingo, Bernaldo a Bernardino, Tareija a Teresa, etc., o
que também acontecia com os apelidos: Outeiro para Otero, Soutelo para
Sotelo, Monteiro para Montero, e assim por diante). Ainda
assim, o povo conseguiu conservar, durante os chamados “séculos
obscuros”, os vilancetes galegos, as panjolinhas de Natal, os cantos de
Reis. Mas os que poderíamos
chamar “notáveis” já escreviam em castelhano,
como p.ex. o Licenciado Molina (cónego da catedral de Mondonhedo). E assim chegamos à Ilustração,
com o Pe. Sarmento (defensor da língua vernácula) e o crítico Pe. Feijó,
e à desamortização, a exclaustração, a abolição
dos desmos. Então
explicam, pelo menos em parte, esse submetimento e medo o suposto caráter
“manso” do povo galego? A
sua aparente impotência política? Houve
então uma “doma e castração” dupla, pelo poder político centralista
e pelo poder eclesiástico integrista? Nos
tempos modernos a Igreja galega, mesmo em castelhano, teve ainda as suas
cabeças pensantes, como o filósofo A. Amor
Ruival, órgãos como a revista Logos, mas... com a sublevação
militar veio o silêncio da Igreja, o assassinato do católico Alexandre Bóveda,
e os fascistas não hesitavam em fuzilar cregos (como o secularizado Matias
Useros Torrente, em agosto do 1936). O
arcebispo de Santiago foi um dos primeiros em designar cruzada aquela
revolta (embora houvera frições entre os falangistas e o clero), a
imprensa católica (El Ideal Gallego, La Región, etc.)
exaltava o novo Movimiento Nacional, Vicente Risco escrevia em Spes
(da Acción Católica), e o bispo de Tui, López Ortiz, apoiou a
implantação da Opus Dei. Eram
os duros tempos da “longa noite de pedra” (moderno transunto dos “séculos
obscuros”), dos “certificados de boa conduta”, expedidos pelo cura da paróquia,
para poder solicitar um trabalho; da obriga de ir à missa (a Guarda Civil
podia ir pesquisar pelas casas das aldeias para ver se alguém não fora à
igreja no domingo); dos medonhos exercícios espirituais, das pregações
dos redentoristas, a condenação, o inferno; em soma: do triunfalismo e do
nacionalcatolicismo espanhol. Chegando
aos nossos tempos, a Igreja
galega teve também o seu aggiornamento
com o Concílio Vaticano II, que levou à liturgia em galego. Surge então a editora SEPT, que publicou a primeira tradução
moderna dos Evangelhos em galego, dos cónegos Morente Torres e Espinha
Gamalho, e a dos Salmos, do Pe. Estraviz.
E ainda os curas operários, na oposição ao franquismo. Mas é já Igreja galega?
Ou ainda Igreja espanhola na Galiza?
Ela tem bispos “pós-conciliares”
(p.ex. Araújo em Mondonhedo), mas também muitos “preconciliares”
(p.ex. Teminho em Ourense), tem o Pe.
Silva em Bemposta, coa sua “Nação dos muchachos” (mas acossado pelas
altas jerarquias), tem confrarias e associações, como Irímia com romarias
de crentes, e revistas galegas como Encruzilhada.
Mas baixa a prática religiosa dos moços (embora haja muitos moços
peregrinos no Caminho de Santiago), que nem sequer vão à igreja
para se casarem (na hipótese de casarem). Em
todo o caso, a pergunta está ainda aí, sem resposta definitiva: é esta
Igreja de hoje ainda aquela Igreja nacional espanhola?
Ou a Igreja universal aculturada na Galiza, como p.ex. a basca
(Franco fuzilou cregos bascos em nome da “Cruzada”) ou a catalã (nunca
se deixou de dizer a missa em catalão no mosteiro de Monserrate)? São elas duas igrejas?
Ou só uma (a galega) minorizada e submetida, dependente e quase muda
na sua língua vernácula? E tem algo a ver o sucursalismo histórico desta Igreja com o
sempiterno sucursalismo político no nosso país? Por outras palavras: a Igreja torna-nos pessoas livres ou
mantém-nos ainda na dependência? Carlos
Durão, Londres, jan. 06 |