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SOBRE O ASSOCIATIVISMO DA DEFESA DA LÍNGUA NA GALIZA BIBLIOTECA LÚCIO CRAVEIRO DA SILVA, BRAGA 18 DE MARÇO DE 2006 |
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Boa tarde. Participo em representação da ASSOCIAÇÃO DE AMIZADE GALIZA-PORTUGAL. Em seu nome agradeço o convite dos organizadores desta SEMANA DA GALIZA EM BRAGA. Provavelmente não serei capaz, nos próximos minutos, de dar toda a informação que seria desejável. É por isto que fico ao vosso dispor para esclarecer, no debate posterior, as dúvidas que puderem ficar.
O tema desta palestra é “O
associativismo na defesa da língua na Galiza”. Se há uma associação
indispensável num evento cultural em Braga relacionado com a língua e
Galiza, é as Irmandades da Fala da Galiza e Portugal. Amizade
Galiza-Portugal e outras entidades sempre temos colaborado na realização
de edições conjuntas com as IF, dando como resultado nos últimos 20 anos
a promoção de 4 revistas internacionais editadas nesta cidade (Nós, Temas
do Ensino e O Ensino e Cadernos do Povo),
e mais de 70 livros em diversas coleções (poesia, ensaio, teatro,
antologias, atas de congressos, etc). A não esquecer: o grupo de
professores e artistas bracarenses no entorno das Irmandades da Fala
promoveu, também, a participação da «Delegação de Observadores da
Galiza» nos Acordos Ortográficos.
Em
Braga realizámos conjuntamente, também vários congressos, promovémos um
grupo poético e constituímos a GERAÇÃO DA LUSOFONIA, reunindo sob este
epíteto os escritores galegos que, desde a década de 80, assumimos o
discurso da unidade da língua e escrita comum da nossa língua. Contudo, se
algum ano pode ser salientado como fundacional, este é 1990, com dois
textos de um simbolismo especial: o volume Mátria da Palavra (Incipit Líber
da Lusofonia), da coleção Cadernos do Povo, e o volume VI dos Temas
do Ensino de Linguística, Sociolinguística e Literatura, sob o
esclarecido título Ressurgimento galego, essa lusofonia.
Permitam-me
também contextualizar brevemente esta Semana da Galiza em Braga que nos
trouxe hoje aqui. Não é esta uma atividade isolada na história, pois faz
parte de uma trajectória de relacionamento iniciada há duas décadas de
que me sinto, pessoalmente, co-partícipe. Em 1988, o contacto pessoal com
estudantes da Faculdade de Letras do Porto, entre os que estava Manuel Loff,
da AEFLUP, conduziu à realização de umas jornadas de actividades para o
relacionamento entre estudantes, nesse local universitário. Lá tivemos
conhecimento da queima das fitas e tivemos a experiência de, pela primeira
vez, dormir numa república dentro da República Portuguesa. Essa Semana do
Porto foi seguida pela Semana Braga-Galiza de 3 a 9 de Abril de 1989,
organizada desta parte da raia pela Associação Académica da Universidade
do Minho, e da parte de cima da raia, por Iolanda Aldrei, Ângelo Brea e eu
mesmo. Lá estivemos mais de 100 estudantes galegos participando em conferências,
debates e outras actividades culturais, numa semana de experiências muito
frutíferas. Esta, por sua vez, teve continuidade noutra Semana Cultural em
Ourense, onde a participação foi também numerosa, de ambos os lados da
raia.
A
AAG-P é uma entidade cultural nascida em 1980 na Galiza e tem como fim
fundamental «...fomentar as relações culturais entre a Galiza e Portugal,
por ser dois Povos da mesma área cultural, linguística e literária, com
interesses comuns» (Artigo 2 dos Estatutos). Integrada por pessoas lusófonas,
a sua atividade desenvolve-se nos dois Estados ibéricos em colaboração
com outras entidades culturais e instituições. Os seus membros participam
em congressos, encontros e debates sobre questões de culturas lusófonas em
geral, e da língua portuguesa em particular, no desenvolvimento dos
objetivos marcados nos estatutos: «O fomento das belas artes e a realização
de estudos, trabalhos e investigações etnográficas, sociológicas, económicas...» Em temas de língua, a linha de atuação foi sempre a integração da Galiza na Lusofonia. Assim, apoiou a Comissão Galega do Acordo Ortográfico, nos Acordos do Rio de Janeiro e Lisboa. O Prof. Dr. António Gil Hernández, membro da nossa Associação, participou nas sessões de trabalho que conduziram ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa em 1990. Mantém
a página web www.lusografia.org/amizadegp
em que são publicados artigos e informações relativos à língua
portuguesa na Galiza. Para
além das publicações em forma de livros e artigos, realizadas pelos
nossos associados noutras editoras, como as do Presidente, Xavier Vilhar
Trilho (A remodelação federal-confederal do reino da Espanha), ou
por António Gil (Silêncio Ergueito, Luzes e espírito, Baralha
de Sonhos, ou a edição crítica do livro de João Vicente Biqueira,
Poesia e Ensaio), a associação tem uma linha editorial própria. Em
2003 começou a organização dos «Seminários de Política Linguística».
Durante a realização do Segundo, em 2004, a associação lançou o livro Do
latim às Línguas Nacionais: introdução à história social das línguas
europeias, do sociólogo Lluís Aracil, de que sou organizador. A edição
de 2006 (que terá lugar em Santiago de Compostela, em 28, 29 e 30 de Março),
está dedicada ao estudo e difusão da obra do sociolinguista António Gil,
que lançará o seu último livro Temas de Linguística Política,
que já pode adquirir-se na Livraria Minho. Este lançamento foi adiantado
para o Sábado 25, pelas 15 horas, na Casa dos Crivos, numa ato que será
apresentado pelo escritor e tradutor Mário Herrero. A
AAG-P colabora com outras associações lusófonas, quer na edição de
livros e revistas, quer na realização de diversas atividades cívicas e
académicas. -
2000: Em Santiago de Compostela, «IV Congresso Internacional de Língua,
Cultura e Literaturas Lusófonas: Galiza, Portugal, Brasil, Palop-Timor»,
de 13 a 15 de Setembro de 2000, junto com as Irmandades da Fala da Galiza e
Portugal e a Associação Galega de Escritores (AGE). -
2003: Comunicado conjunto de diversas entidades culturais, «A reforma
ortográfica e a língua na Galiza», em defesa da unidade da língua. - 2004: «Proposta de reforma do Estatuto de Autonomia da Galiza»,
de modo a garantir os direitos linguísticos dos cidadãos http://www.proposta2004.tk/ -
2004: Representação conjunta da Galiza (com o MDL e AGAL) no Foro Social
Europeu de Londres, em que se expôs a situação da língua na Galiza -
2005: «Petição ao Parlamento Europeu» http://www.peticao-pe.tk,
em que se solicita «Que
as instituições europeias se abstenham de promover a segregação linguística
das minorias nacionais, e seja reafirmada a unidade da língua portuguesa,
nacional ou oficial na Galiza, Portugal, Brasil, Angola, Cabo Verde, Guiné
Bissau, São Tomé e Príncipe, Moçambique e Timor Lorosae». Em 1 de
Janeiro de 2006 a RTP emitiu durante no «Jornal da Tarde», uma reportagem
de 8 minutos sobre esta campanha -em que ainda estão a trabalhar as
entidades promotoras, AAG-P e MDL. O vídeo é acessível na excelente página
da internet do professor Celso Álvarez Cáccamo: http://www.udc.es/dep/lx/cac/vo/20060101IT/index.htm
A Petição ao
Parlamento Europeu, campanha que continua activa, já tem dado o seu
primeiro fruto: A Comissão admitiu a nossa petição e, sem pronunciar-se
sobre o fundo da questão, transmitiu-na à Comissão de Cultura, que a deve
ter em conta para a elaboração das suas políticas. O primeiro parágrafo
desta petição diz o seguinte: 1.
A língua da Galiza, ou galego, sob o nome de português, já é língua
oficial do Parlamento Europeu, e os cidadãos espanhóis lusófonos que se
reconheçam como tais podem usá-la nas instituições europeias. Um claro
exemplo é o representado pelos ex-deputados galegos que, durante as
anteriores legislaturas, decidiram usar, oralmente e por escrito, a língua
da Galiza nas suas intervenções: os Sres. José Posada e Camilo Nogueira
(ver: http://www.empresas.mundo-r.com/31088W0001/language.htm), que falaram
e escreveram habitualmente o português com sotaque e léxico da Galiza,
foram traduzidos para as outras línguas pelos funcionários que no
Parlamento Europeu realizam traduções da língua portuguesa. Em consequência,
os representantes europeus dos estados espanhol e português têm a obriga,
por respeito aos seus respetivos cidadãos, de chegar a um acordo sobre os
usos do português nas instituições europeias. Comentarei
brevemente: É
doutrina tradicional no galeguismo, até meados do século XX, a consideração
do galego como a mesma língua portuguesa, não uma língua diferenciada. O
nominalismo não é um argumento válido para a demonstração da existência
de uma nova língua. Utilizar a expressão “galego” para o português da
Galiza, é tão legítimo como dizer “brasileiro” para a língua
portuguesa falada no Brasil, com uma diferença, a língua de que falamos
nasceu no território da antiga Gallaecia, que abrangia amplamente o condado
bracarense. Nos
fins da década de 70 o saudoso professor Rodrigues Lapa propunha a assunção
do português e dos autores clássicos portugueses para corrigir a péssima
situação do galego. A agressiva reação protagonizada pelo galeguismo
oficial contra estas propostas, pressagiava o desastre actual em que estamos
mergulhados. O português galego acha-se numa situação crítica, com uma
perda de utentes em progressão a favor do castelhano e uma incapacidade dos
âmbitos oficiais e para-oficiais de imprimir uma mudança de rumo. O modelo
do galego como língua popular e as consignas a ele associadas resultaram um
fracasso patente. Quando Lapa explicitava a necessidade de recuperar a
distinção entre fala e língua de cultura, estava a lembrar um dos critérios
por que se constituíram as línguas nacionais, o mesmo que está implícito
em todos os manuais e gramáticas das línguas europeias, o mesmo do Curso
de Linguística Geral de Ferdinand de Saussure, por exemplo. Essa
concepção do galego como língua popular, no sentido contrário ao das línguas
nacionais, foi o contexto para a produção e generalização de diversas
falácias que pesam como lousas no processo de normalização linguística.
Lembremos apenas duas: -
“PRIMEIRO
NORMALIZAR, E DEPOIS NORMATIVIZAR”. O erro desta consigna é colossal. O
argumento consiste em, primeiramente, estender o uso da língua e,
posteriormente, ensinar a falá-la e escrevê-la. Esta ideia atingiu na
Galiza uma ampla difusão e aceitação, tácita e explícita, sob a
consideração da correção linguística como aspecto prescindível, acessório
ou secundário. Na prática, e nas condições sociolinguísticas que
sofremos, a aceitação desta consigna implica que o castelhano (que
continua a ser quase a única língua de alfabetização), simplesmente
continue a ser o critério de correção para os utentes galegos. A
gravidade da consigma “Primeiro normalizar, depois normativizar”, não
assenta na vontade (melhor ou pior) dos que sinceramente acreditavam nela,
mas no facto de dar continuidade à situação de dominação do castelhano
como língua de cultura na Galiza. O problema não é a incorreção linguística
generalizada nos ambientes culturais, que alastra por toda a parte na
Galiza, o que podia corrigir-se simplesmente aprendendo; o problema radica
na incapacidade para perceber essa necessidade de correção. Por esta e por
outras razões, é evidente que o galego não é nem será nunca uma língua
nacional diferente da portuguesa: o galaico-castelhano patrocinado pelas
instituições oficiais foi concebido exactamente no sentido contrário.
Sirva isto também para entender a nossa falta de “armas e barões
assinanados”, que Camões disse haver em Portugal: A ausência de notáveis
galegos. Existe uma expressão comum que diz: “Se não o vejo, não
acredito”. A muitos, na Galiza, acontece-lhes o contrário, “Se não o
acreditam, não conseguem ver o que têm à sua frente”. Necessitam
acreditar para ver. -
A
segunda falácia que gostava de comentar é aquela muito utilizada de que HÁ
UMAS NORMAS OFICIAIS DO GALEGO. A galiza é uma terra de paradoxos, enganos
e absurdos tão comuns que já parecem fazer parte da paisagem. Costumam
dizer na rádio oficial da Comunidade Autónoma: “São as 4 da tarde, hora
galega”. Mas por que não reconhecem que é a hora oficial castelhana,
estabelecida conforme aos interesses da economia espanhola? O mesmo acontece
com a ortografia. Dizem os promotores do galaico-castelhano: “O N com til
é uma letra galega”. Todos sabemos que é um símbolo do castelhano,
digam que utilizam as letras espanholas. Chamem as coisas pelo seu nome. No
mesmo sentido, é absurdo e até kafkiano a pretensão de existir uma norma
oficial de uma língua cujo uso depende da vontade dos utentes. Conforme às
sentenças do Tribunal Constitucional espanhol de 1986, os galegos só
estamos obrigados a conhecer o castelhano, e o uso do galego depende da
vontade dos cidadãos, que nunca podem ser obrigados a utilizá-lo. Não
pode existir normas obrigatórias para uma língua cujo uso é estritamente
voluntário. É paradoxal a insistência de muitos nacionalistas galegos e
algumas associações culturais no cumprimento das normas castelhanistas
para o galego, enquanto não estão garantidos os mínimos direitos linguísticos
dos utentes, simplesmente os direitos civis. Isto tem relação com a
campanha da Petição ao Parlamento Europeu. O que nunca aconteceu durante a
ditadura franquista, a interferência espanhola nas questões do galego,
produziu-se ao chegar o sistema democrático sancionado pela constituição
de 1978. Os mesmos que antes perseguiam os utentes do galego, agora
apropriaram-se da língua para impedir uma aproximação do português.
Trata-se de conseguir o mesmo resultado com diferente método: antes
proibiam o uso público da nossa língua. Agora fomentam a sua castelhanização,
com os resultados que todos conhecemos. -
O
segundo parágrafo da Petição diz o seguinte: 2.
A pertença da Galiza ao âmbito linguístico lusófono foi
reconhecida em documentos internacionais, aquando a realização dos
Encontros de Unificação Ortográfica do Rio de Janeiro (1986) e Lisboa
(1990), em que a Comissão Galega do Acordo Ortográfico -integrada por
entidades não governamentais com capacidade legal para decidirem em questões
de ortografia-, foi convidada oficialmente para participar, como
observadora, nas citadas reuniões, tendo participado na elaboração dos
citados Acordos e aderido aos documentos oficialmente aprovados, junto das
delegações dos países de língua oficial portuguesa na
altura: Portugal, Brasil, Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique
e São Tomé.
Aos 20 anos do Acordo do Rio de Janeiro, e 15 do Acordo de Lisboa, o
significado dessa participação transcente o das organizações e pessoas
que, como observadoras e em representação da Galiza, estiveram presentes
na Academia Brasileira de Letras e Academia das Ciências de Lisboa. É hora
de todos assumirmos, definitivamente, o passo dado nessa altura, que
significou a entrada da Galiza na Lusofonia, como era o desejo da maior
parte dos vultos do galeguismo: Biqueira, Castelão, Guerra da Cal, Carvalho
Calero. A nossa colaboração com outras associações e instituições assenta em dois princípios: a aceitação do discurso da unidade da língua, e a utilização do português comum como norma básica. Mas isto não quer dizer que esteja tudo feito e que o nosso labor consista em receber um trabalho perfeitamente acabado. Antes, pelo contrário, há muito a realizar no âmbito da fixação da norma do português galego. Começando pelo princípio, falta um modelo de oralidade, uma ortofonia que, sendo coerente com a tradição galega, nos insira na lusofonia. Neste caso as pronúncias do Norte de Portugal são o melhor exemplo. Também no terreno do léxico há trabalho a fazer, na procura da recuperação do património linguístico galego, que deverá incorporar-se aos dicionários e gramáticas da língua portuguesa. Muito obrigado pela vossa atenção. |