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Do latim às Línguas Nacionais: Introdução à História Social das Línguas Europeias Recensão de Pere Martínez Barreda * Revista NovesSL, Dezembro 2004 |
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Borges lembra-nos que os antigos estimavam a palavra oral antes
que a escrita porque esta não é mais nada do que um sucedâneo de
aquela. A este juízo traz os testemunhos de Platão e de Clemente de Alexandria. O primeiro diz que os livros são como as figuras
pintadas, «que parecem vivas, mas que não respondem uma palavra às
perguntas que se lhes fazem». Por isso imaginou o diálogo filosófico
em que o mestre elege o discípulo, enquanto o livro não escolhe os
seus leitores, que podem ser malvados ou estúpidos. O segundo escreve
que é mais prudente não escrever, mas aprender e ensinar de viva
voz, porque aquilo que se escreve escrito fica e escrever num livro
todas as cousas é como deixar uma espada nas mãos dum menino. Não há
nenhuma dúvida de que Aracil compartilha com os antigos essa paixão
por ensinar de viva voz. Não temos notícias que tenha usado nunca,
nas inumeráveis e incansáveis horas que investiu em seminários,
conferências, mesas e "sobremesas", aquele privilégio platónico.
Ao contrário, a sua generosidade foi imensa em compartilhar o seu
tempo e o seu pensamento com todos aqueles que se lhe aproximaram com
desejos de o escutar e de aprender. Porém, podemos estar seguros de
que estes "discípulos" -Cristóvão e Conill- que deram a
lume o livro que comentamos não são nem malvados nem estúpidos:
cumpre apenas olhar o cuidado e a solvência com que têm preparado a
sua edição.
Nas primeiras páginas do livro estabelece o lugar central que ocupa o
latim na Europa medieval e a sua relação com as línguas vulgares e
nele assinala como eixo central da sua narração da história linguística
europeia os conceitos de unidade e de comunidade ligados a aquela língua.
O latim, língua comum, vincula-se com a ideia de unidade,
uniformidade e imutabilidade. As outras línguas relacionam-se com a
ideia da peculiaridade, da variabilidade, a mutabilidade e a
diversidade. Chegará um momento em que esta unidade se quebrará e,
eliminado o latim -idioma comum-, se estabelecerá a concorrência
entre os vulgares para ocupar o seu lugar. Entre as muitas linhas que
propõe Aracil para reconstruir a história linguística da Europa
acha-se aquela que estabelece uma relação interessantíssima entre o
estabelecimento das línguas nacionais e a consolidação da educação
nacional -o bacharelato- que é a dos notáveis, sendo estes os que
constituem a nação. Identifica o rótulo 'educação nacional' -que
aparece nos meados do séc. XVIII- com o de bacharelato: aqui é onde
o latim é substituido como língua veicular da educação. Tem-se a sensação, ao ler este livro, que agora nos falta alguma cousa para a comunicação intra-europeia. Está, decerto, o inglês. Mas esta, que pode ser a língua de todos, é assemade a língua de algum. O latim era língua comum porque não era própria de nenhum em particular, era de todos. Até ao séc. XVIII houve resistência, desde a herdança comum das letras latinas, à formação de agrupações específicas. Enquanto existiu uma prestigiosa tradição cultural comum não foi para a frente o predomínio da diversidade sobre a unidade. Mas entre o séc. XVIII e o Romantismo houve uma rotura que estoura quando se abre passo a exaltação do génio, do espírito e, em definitivo, da originalidade de cada nação particular. Acontece que a nação, como disse Aracil, não pode ser definida, porque é definidora (isso não o saben, ou sabem-no e ocultam-no, os dous grandes partidos da nação espanhola, que estes dias, Novembro de 2004, se interrogam mutuamente por aquilo que é a "nación española"). Não é casual que entre o XVIII e o XIX irrompeu na Europa a ideia de nação. Advertiu-se isso na França onde surge uma nova "identité de substitution": o ensino da retórica e das línguas e obras mestras clássicas, na formação do novo "citoyen", vai perdendo o lugar central. A partir de Herder a língua será considerada como princípio unificador: uma língua, uma nação. Acabar-se-á encerrado o círculo de autosuficiência: uma língua, uma nação, um Estado; e um Estado, uma literatura; uma literatura, uma língua.
Quer dizer, por palavras de Aracil: «Acreditar que onde há várias línguas
e uma comum podemos eliminar justamente a comum sem perda, ou sem que
nada essencial mude é um erro muito grande porque, se eliminarmos a
comum, fica vacante essa vaga [...]. Por outro lado, no caso da
Espanha, não temos costume de entender coisa nenhuma.Assinalarei algo
facilmente inteligível: se a lingua comum -e a mais respeitada- não
for a particular de ninguém e ficar banida, a língua que ocupará o
seu lugar será uma que, primeiramente, além de ser comum, será a própria
de alguém. Nesse caso o jogo será outro, estaremos mudando as suas
regras, fazendo com que uma língua sirva para tudo, enquanto outras não.
Estaremos a construir o mesmo jogo da minorização e do bilinguismo
unilateral.»
Convém ler com muita atenção as reflexões e propostas de Conill
porque aí amostra também o que lhe atribui justamente a Aracil: a
ambição teórica, a busca duma grande teoria que possa responder
"as exigências colocadas por uma concepção paradigmática da
disciplina". Convém, sobretudo, ao âmbito sociolinguístico
catalão, tão inchado de inquéritos e tão falto de reflexões e de
modelos teóricos, conhecer este trabalho de Conill e de outros inéditos
que merecem sair à leitura e discussão pública melhor hoje do que
amanhã. * Tradução de António Gil Pere Martínez Barreda
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