Do latim às Línguas Nacionais:

Introdução à História Social das Línguas Europeias

Recensão de Pere Martínez Barreda *

Revista NovesSL, Dezembro 2004

                                                                                                                                                                                

      Borges lembra-nos que os antigos estimavam a palavra oral antes que a escrita porque esta não é mais nada do que um sucedâneo de aquela. A este juízo traz os testemunhos de Platão e de Clemente de Alexandria. O primeiro diz que os livros são como as figuras pintadas, «que parecem vivas, mas que não respondem uma palavra às perguntas que se lhes fazem». Por isso imaginou o diálogo filosófico em que o mestre elege o discípulo, enquanto o livro não escolhe os seus leitores, que podem ser malvados ou estúpidos. O segundo escreve que é mais prudente não escrever, mas aprender e ensinar de viva voz, porque aquilo que se escreve escrito fica e escrever num livro todas as cousas é como deixar uma espada nas mãos dum menino. Não há nenhuma dúvida de que Aracil compartilha com os antigos essa paixão por ensinar de viva voz. Não temos notícias que tenha usado nunca, nas inumeráveis e incansáveis horas que investiu em seminários, conferências, mesas e "sobremesas", aquele privilégio platónico. Ao contrário, a sua generosidade foi imensa em compartilhar o seu tempo e o seu pensamento com todos aqueles que se lhe aproximaram com desejos de o escutar e de aprender. Porém, podemos estar seguros de que estes "discípulos" -Cristóvão e Conill- que deram a lume o livro que comentamos não são nem malvados nem estúpidos: cumpre apenas olhar o cuidado e a solvência com que têm preparado a sua edição.
      Este é o segundo livro de Aracil "escrito" depois de ser "dito". O primeiro foi 'La mort humana' (1998), transcrição do seminário ministrado em Morella durante o verão de 1994. 'Do latim às Línguas Nacionais' é a transcrição do seminário ministrado em Ourense no mês de Dezembro de 1988. Já se vê pela cronologia que não é nada fácil achar uma obra de Aracil nas livrarias -'Dir la realitat' é de 1983. Portanto, não é nenhum segredo o facto de Aracil ter prodigado mais a palavra oral do que a escrita. Nesta ocasião, por iniciativa de Ângelo Cristóvão (que transcreveu o seminário), secretário da Associação de Amizade Galiza-Portugal, os leitores do espaço lusófono poderão conhecer o sugestivo contributo de Aracil ao
conhecimento e entendimento do modo com que a civilização europeia optou -ganhando?- pela diversidade en detrimento da unitade secular do latim.
      Para a edição do livro Cristóvão contou com a colaboração de Josep Conill, conhecedor a fundo de toda a obra araciliana. A participação de Conill neste trabalho foi dupla. Dum lado é o autor dum estudo crítico, que constitui um epílogo de 47 páginas ('Dizer o sentido: uma aproximação à sociologia de Lluís V. Aracil'), da biografia inteletual e da obra de Aracil, que é uma excelente apresentação do sociólogo ao público português (o leitor em catalão já conhece algumas, mas aprenderia muito desta) e também o responsável da mais completa e em grande parte inédita bibliografia de Aracil que chega até ao ano 2003. Além disso, Conill e Cristóvão anotaram o texto transcrito de Aracil como se se tratasse dum clássico. As exposições de Aracil costumam ir acompanhadas duma voragem de referências bibliográficas que percorrem os caminhos mais inesperados e que abrem ao ouvinte uma quantidade esmagadora de pistas para continuar profundizando nas propostas e provocações inteletuais do mestre. Não é fácil seguir o seu rasto. Os editores fazem nisso um magnifico trabalho de pôr a disposição do leitor todas as obras citadas por Aracil no seminário. Nas numerosas e nada excessivas notas fornecem um volume considerável de informação dos autores citados. Algumas são como pequenos ensaios que dão boa notícia ao leitor de autores e personagens (em muitos casos de autores e obras do âmbito catalão que serão muito úteis aos leitores portugueses de que talvez não têm conhecimento preciso).
Aracil tem o bom costume, nos seminários que ministra, de fornecer aos participantes documentação com abundante bibliografia sobre os temas tratados e também seleções de textos que ajudan a remarcar, reforçar e situar os seus contributos. Em consequência, o livro dispõe dum apêndice em que consta uma pequena antologia de textos que esclarecem as referências que permitem a Aracil ligar os sentidos da nova olhada sobre papéis que lá estavam, «a morrerem com o riso». Há um modo, um "estilo Aracil" de entender o mundo e de o explicar. Não repara no mais concreto (sempre abominou de filólogos e fonadores), mas no funcionamento do sistema. Tem a capacidade pouco frequente por estes bairros de ver um novo sentido e ligar as cousas pelos seus significados profundos e não pelos aparentes. Por isso cai-lhe muito bem esta frase-programa que propõe Pietro Aretino, numa epístola de 1537, a Lodovico Dolce: «Procurai portanto ser escultor de sentidos e não miniaturista de vocábulos». Com efeito: Aracil não é miniaturista de vocábulos! A perspectiva da sua aproximação à história social -cumpre salientar o adjetivo- das línguas europeias é a de pensá-la em termos de história linguística de uma civilização, a ocidental.

      Nas primeiras páginas do livro estabelece o lugar central que ocupa o latim na Europa medieval e a sua relação com as línguas vulgares e nele assinala como eixo central da sua narração da história linguística europeia os conceitos de unidade e de comunidade ligados a aquela língua. O latim, língua comum, vincula-se com a ideia de unidade, uniformidade e imutabilidade. As outras línguas relacionam-se com a ideia da peculiaridade, da variabilidade, a mutabilidade e a diversidade. Chegará um momento em que esta unidade se quebrará e, eliminado o latim -idioma comum-, se estabelecerá a concorrência entre os vulgares para ocupar o seu lugar. Entre as muitas linhas que propõe Aracil para reconstruir a história linguística da Europa acha-se aquela que estabelece uma relação interessantíssima entre o estabelecimento das línguas nacionais e a consolidação da educação nacional -o bacharelato- que é a dos notáveis, sendo estes os que constituem a nação. Identifica o rótulo 'educação nacional' -que aparece nos meados do séc. XVIII- com o de bacharelato: aqui é onde o latim é substituido como língua veicular da educação.
      O fio que segue Aracil na sua exposição tece o papel da igreja, do humanismo, da imprensa, da 'Respublica Litteraria', da educação nacional, do nacionalismo, num processo que vai da unidade fornecida pelo latim à diversidade das línguas europeias que substituirão aquela a partir dos meados do séc. XVIII. A história linguística da Europa é a da substitução duma língua comum pelas diversas línguas próprias que se tornarão em línguas nacionais. Durante muitos séculos na Europa houve uma hierarquia de línguas, umas serviam para uma cousa e outras para outra. Não havia aquilo que o sentido comum atual pretende: que em cada espaço (ponde-lhe o nome que quiserdes: país, nação, estado, território...) há uma só língua e esta serve para tudo. Na atual União Europeia, que ainda não é Europa, há uma pugna de línguas para o mesmo. É isso viável? Não terá sido, a do latim, uma perda irreparável?

      Tem-se a sensação, ao ler este livro, que agora nos falta alguma cousa para a comunicação intra-europeia. Está, decerto, o inglês. Mas esta, que pode ser a língua de todos, é assemade a língua de algum. O latim era língua comum porque não era própria de nenhum em particular, era de todos. Até ao séc. XVIII houve resistência, desde a herdança comum das letras latinas, à formação de agrupações específicas. Enquanto existiu uma prestigiosa tradição cultural comum não foi para a frente o predomínio da diversidade sobre a unidade. Mas entre o séc. XVIII e o Romantismo houve uma rotura que estoura quando se abre passo a exaltação do génio, do espírito e, em definitivo, da originalidade de cada nação particular. Acontece que a nação, como disse Aracil, não pode ser definida, porque é definidora (isso não o saben, ou sabem-no e ocultam-no, os dous grandes partidos da nação espanhola, que estes dias, Novembro de 2004, se interrogam mutuamente por aquilo que é a "nación española"). Não é casual que entre o XVIII e o XIX irrompeu na Europa a ideia de nação. Advertiu-se isso na França onde surge uma nova "identité de substitution": o ensino da retórica e das línguas e obras mestras clássicas, na formação do novo "citoyen", vai perdendo o lugar central. A partir de Herder a língua será considerada como princípio unificador: uma língua, uma nação. Acabar-se-á encerrado o círculo de autosuficiência: uma língua, uma nação, um Estado; e um Estado, uma literatura; uma literatura, uma língua.

      Quer dizer, por palavras de Aracil: «Acreditar que onde há várias línguas e uma comum podemos eliminar justamente a comum sem perda, ou sem que nada essencial mude é um erro muito grande porque, se eliminarmos a comum, fica vacante essa vaga [...]. Por outro lado, no caso da Espanha, não temos costume de entender coisa nenhuma.Assinalarei algo facilmente inteligível: se a lingua comum -e a mais respeitada- não for a particular de ninguém e ficar banida, a língua que ocupará o seu lugar será uma que, primeiramente, além de ser comum, será a própria de alguém. Nesse caso o jogo será outro, estaremos mudando as suas regras, fazendo com que uma língua sirva para tudo, enquanto outras não. Estaremos a construir o mesmo jogo da minorização e do bilinguismo unilateral.»
      O epílogo ('Dizer o sentido: uma aproximação à sociologia de Lluís V. Aracil', de Josep Conill) é, na realidade, uma segunda parte do livro. É complemento importante, já o dissemos, para os leitores portugueses. Mas, além disso, tem valor por si mesmo, como trabalho lúcido, esclarecedor e crítico da obra araciliana. Aracil tem e teve muitos seguidores e leitores, mas poucos que o entendessem. Conill amostra no seu estudo profundo conhecimento da obra araciliana. Poderemos ler a análise rigorosa das teorias de Aracil, mas também as limitações explicativas que contêm; exemplo: o modelo teórico araciliano de conflito linguístico. Através da bibliografia de Aracil, tanto da publicada quanto da inédita, que conhece a fundo, Conill estabelece a trajetória inteletual do sociólogo que se teria desenvolvido em quatro períodos que abrangem o que segundo o autor do epílogo é a sociologia araciliana: processo que vai do falar ao dizer e mais alá. Isto é, aventura inteletual que é como um caminho de busca, um caminho mais para entender do que para saber. Torna-se muito inteligível e coerente a maneira com que Conill estabelece esses periodos: sociolinguística do falar, sociologia do discurso, história social das línguas da Europa e etologia da (des)civilização.

      Convém ler com muita atenção as reflexões e propostas de Conill porque aí amostra também o que lhe atribui justamente a Aracil: a ambição teórica, a busca duma grande teoria que possa responder "as exigências colocadas por uma concepção paradigmática da disciplina". Convém, sobretudo, ao âmbito sociolinguístico catalão, tão inchado de inquéritos e tão falto de reflexões e de modelos teóricos, conhecer este trabalho de Conill e de outros inéditos que merecem sair à leitura e discussão pública melhor hoje do que amanhã.
      «Do latim às línguas nacionais: Introdução à História Social das Línguas Europeias» é um livro que, e isto é traço de Aracil, não se esgota nele próprio, abre perspectivas, provoca reflexões, incita investigações, convida a visitar e revisitar leituras, é um instrumento para pensar e para entender. Seria muito útil que seguisse o mesmo caminho que o seminário de Ourense outro ministrado por Aracil no Instituto Francês de Barcelona em 1992, organizado pelo 'Institut de Sociolingüística Catalana', e transcrito por Jordi Bañeres com o título 'Del llatí a les llengües nacionals a través de l'Humanisme Vulgar' (circula em versão mecanografada). Convém que seja editado, como mínimo, com a mesma pulcritude e eficácia com que o fizeram Cristóvão e Conill.

* Tradução de António Gil

Pere Martínez Barreda 


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