DA ABERRAÇÃO AO QUOTIDIANO
Prof. Dr. Celso Alvarez Cáccamo
Depto. de Galego-Português, Francês e Linguística
Universidade da Corunha
28
de Dezembro de 2001
O quê dizer sobre a língua galego-portuguesa
moderna na Galiza que não esteja já dito?
Na realidade, as etiquetas “língua”, “escrita”, “lusofonia” ou
“lusografia” reúnem tal quantidade de práticas sociais diversas (práticas de
classe) que qualquer tentativa de descrição -- e ainda mais de “defesa” -- de
uma ou outra não pode ser senão uma enorme redução, com objectivos também de
classe. Por um vago princípio fujo de
qualquer posicionamento que coloque a “língua” por cima das pessoas. A glorificação das línguas cobra tais
dimensões entre as elites cultas de um país que só se pode entender como o seu
exercício de manutenção da sua posição de classe. Argumentará-se (ou deveria escrever, lusograficamente,
argumentar-se-á?; porque?) que dentro dos campos “lusógrafos” há variadas
posições de classe, assim como dentro do campo “isolacionista” da Galiza na
actualidade. Mas o que constitui estes
grupos, estas empresas de actividade humana, é a sua penetração e intervenção
na variedade da linguagem para reduzi-la a totem, símbolo, moeda de troco, e
todas estas cousas à vez.
Infelizmente, a questão é mais singela que a sua
representação social por grupos interessados na Língua como objecto. Tem-se dito tantas vezes e em tantos lugares
ainda sem ler que sobejaria repeti-lo: há gente que tem e gente que não
tem. Há gente que possui os meios de
produção dos bens materiais e simbólicos e gente que não os possui. Não podia ser diferente no caso da
língua. Não podia ser diferente na
Galiza.
É apenas historicamente contingente que, na
altura, a interpretação dominante sobre o idioma na Galiza o situe como um
produto e artefacto cultural espanhol, embora sectores reintegracionistas e
parte das elites isolacionistas privilegiadas o neguem, e, de boa fé, façam
bastante (nunca se pode dizer “tudo o possível”) por resistirem contra as
formas de fascismo encabeçadas por grupos e pessoas com nome e apelidos, como
Manuel Fraga Iribarne. Podia ter sido
de outra maneira: podia ter triunfado certa razão linguística e cultural lá por
volta dos 70, ou mesmo depois, ou mesmo antes, pois também não vejo como
inerentemente necessário que o projecto nacional espanhol precise de uma
concepção puramente isolacionista do galego.
Sempre é mais fácil predizer o passado, justificar pós-facto como os
eventos foram hegelianamente necessários para este estado de cousas. É mais fácil, mas a profecia do passado é
inútil. A situação está a ser assim,
isso sim, e esta evidência é suficiente para analisarmos onde estamos e aonde
irmos, se esse “mos” existe.
A concepção galego-portuguesa da língua (que reúne
etiquetas temporariamente úteis, como “reintegracionismo” ou “lusismo”) não poderá
estender-se no imaginário social sem uma séria penetração nas estruturas onde
se gere a dominação. E para fazer isto
precisará convencer as elites hegemónicas de que estas letras portuguesas que
utilizo não são uma ameaça: não uma ameaça para o “Povo” ou o “Pobo”, não, mas
para aqueles que constroem o Povo e o Pobo.
Se estas elites estivessem dispostas a reconhecerem que o seu domínio
sobre as cousas da língua é uma cousa trivial, a cerimónia da construção social
de classe poderia tomar outros caminhos.
Mas, se predizer o passado é inútil, lembrar o futuro é árduo: não há
suficientes instrumentos para interpretarmos os poucos signos presentes
acessíveis (signos há muitos, mas resistem-se à análise, portanto não são
signos) que nos indiquem o quê vai acontecer no país daqui a dez ou vinte anos
em matéria de ideologias linguísticas e práticas orais e escritas. Parece, sim, que desce o número de falantes
nativos do galego. Mas também parece
que na Galiza se escreve em português mais que nunca, relativamente a outros
tempos e relativamente a usos não portugueses (quer dizer, usos isolacionistas
galegos). O quê se faz destes
factos? Caminhamos face a uma
elitização maior da escrita galega na Galiza?
Que significado tem isto para uma análise da reprodução de classes?
Obviamente, poderia propor uma alternativa
emancipadora de signo muito diferente: uma sociedade essencialmente distinta
onde o valor das letras, da alfabetização, da cultura escrita se situasse num
nível de intranscendência agora indescritível.
Mas não tenho nenhum argumento para justificar que, nessa sociedade,
fosse esta concepção galego-portuguesa a mais razoável. Provavelmente nenhuma concepção da língua fosse
mais “razoável” do que outra: simplesmente, as visões e práticas da língua aconteceriam.
Quando a diversidade das condutas não afectasse à classificação social em
ignominiosas escalas, é de supor que o mesmo aconteceria com as práticas da
fala e da língua. Nessa hipotética
altura, ser “reintegracionista” ou “isolacionista” seria tão pouco
transcendente como caminhar mais lento ou mais rápido. Estamos muito longe desse lugar, não por mor
da “Língua”, mas dos exércitos e dos santorais do mundo, que matam corpos e
mentes e infectam com as suas hierarquias todas as actividades humanas.
Qual é, portanto, a situação actual da “língua” na
Galiza? Em que estado de cousas devemos
mover-nos? A situação linguística é,
simplesmente, mais uma manifestação do controlo social, da divisão, da
classificação e ré-classificação sociais.
Esta dominação -- este contributo da língua para a dominação -- não é
igual aqui que em outras formações sociais, nem pretendo sugerir isso:
entrecruza-se de maneiras específicas com também específicas questões nacionais
e de classe, que lhe dão a esta questione della lingua a sua
complexidade e até matéria para o ocasional e fátuo brilho intelectual. Mas, essencialmente, na intervenção sobre a
língua na Galiza também se trata da colonização da mente e da obtenção de
capitais por sectores privilegiados.
Reconhecer estes processos no espelho da palavra escrita deveria ser o
primeiro passo para combatê-los, até por desídia. E, nesta pequena resistência, qualquer totalização é o pior
adversário da razão. É claro que há
projectos distintos dentro do campo cultural galego-português, como os há
dentro do campo isolacionista. Mas
acredito (intuo) estarmos num momento de especial fragilidade, de especial
tensão política e intelectual, onde algo que poderíamos chamar “unidade de
acção” faz-se um pouco mais importante.
Deveria (poderia) ser uma unidade sobre bases amplas, como a clara
revindicação da legitimidade, nas proclamas e na prática diária, e como a
concessão do “benefício da dúvida” face aquelas posturas com considerável base
social que ainda não compartilham o valor totémico da grafia “ã”. Explico-me?
Na altura, na Galiza a primeira fronteira simbólica social dessa prática
chamada “lusografia” na Galiza, à margem das nossas detalhadas análises (que
existem) sobre o valor indéxico da escrita, passa pola aberração visual do “ç”
cedilhado (e do “ss” duplo, do “m” final, etc). Como converter, em primeiro lugar, essas aberrações em
normalidade quotidiana, dentro da nossa analfabetização maciça, eis uma parte
inicial da questione della lingua. Uma
parte muito pequena, contudo: infelizmente, “euro” e “cent” escrevem-se igual
em toda Europa, e isso também (e sobretudo) é Língua: é O Discurso.
Celso
Álvarez Cáccamo
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