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Agricultura em crise (I) |
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Ângelo Cristóvão Secretário da Associação de Amizade Galiza-Portugal 25 de Outubro de 2003 |
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Salientava o Transmontano na edição do 12 de setembro: “A
agricultura portuguesa está em decadência”. O titular, em
geral, pode ser aplicado igualmente à Galiza. Ao pensarmos nas
causas desta situação, são mais importantes as perguntas
do que as respostas. Estas derivam diretamente das primeiras, quer
dizer, da forma em que compreendemos o problema.
Oferecemos hoje a primeira descrição e análise dos problemas da
agricultura galega. O tema tem interesse suficiente para lhe dedicar
mais de um comentário, porque tem sido a atividade mais tradicional, a
profissão a que se dedicou a maior parte da população até
há poucas décadas, e porque continuará a ser sector estratégico no
desenvolvimento económico da Galiza e do Norte de Portugal.
A afirmação genérica “A agricultura está em crise”
é discutível quando descemos a sectores concretos como a horticultura,
em que a experiência demonstra as possibilidades reais de
crescimento e rentabilidade na produção em estufas, além da
comercialização. Não podemos afirmar que a crise é total
nem geral; devemos estabelecer, primeiramente, uma diferença entre a
agricultura de subsistência, de reduzida superfície, gerida por
pessoas idosas e ligadas a umas técnicas tradicionais, e aquela
perspetivada como atividade empresarial, empregando menos pessoas mas
obtendo um maior rendimento. É esta a que realmente merece um esforço
formativo e informativo, quer do ponto de vista dos média, quer da
administração pública, que intervêm em diversos graus de
responsabilidade no sucesso deste sector económico.
Quanto aos poderes públicos, na Galiza, o governo autónomo tem amplas
competências para desenvolver políticas favorecedoras deste
sector. Um dos instrumentos de que dispõe são os gabinetes
de orientação agrária mas, infelizmente, não estão
a servir para o fim previsto. Infrautilizados e dedicados, quase
exclusivamente, à “papelada” burocrática, muitos
destes funcionários com formação universitária e vocação
de ajuda ao desenvolvimento agrário, ficam desiludidos pela redução
da sua atividade ao exercício dactilográfico e carimbador.
Outros instrumentos são as feiras agrícolas. Se bem que foram
criadas como fundações de gestão privada, continuam a ser
controladas pelo poder político, a começar pela indigitação
dos presidentes. A mais importante da Galiza é a “Semana Verde de
Silheda”, está em baixa de expositores e público. Esta situação,
semelhante às feiras agrícolas de Braga e Santarém, não
pode explicar-se apenas pela tendência geral dos últimos anos,
mas à intervenção e controle político da Junta da
Galiza. Que podemos esperar de pessoas alheias a este sector e sem o mínimo
interesse pela questão? A realidade é que os responsáveis pela
feira agrícola de Silheda têm tanta relação e interesse
pela agricultura como pela cosmologia.
A miopia e o desinteresse do Partido Popular relativamente à
horticultura galega é resultado, quer da sua ideologia política, quer
da sua concepção do poder, cujo valor supremo é a subserviência
permanente aos interesses espanhóis. Destarte, os fracassos na gestão
são apresentados como resultado, quer da dinâmica interna do próprio
sector, quer das políticas europeias, muitas vezes contraditórias com
os interesses nacionais galegos. Os políticos do Partido Popular
espanhol contemplam a agricultura como fonte de recursos, de impostos,
multas e taxas de toda a espécie. As iniciativas e a resolução
dos problemas costumam vir do próprio sector, que recebe apenas dos
governantes regras e ordens coercitivas, talvez imprescindíveis numa
política de ordenação, mas insuficientes, pela carência
de uma política de promoção de novas alternativas, novas
culturas, novas formas de exploração agrária. A horticultura oferece boas perspetivas de crescimento e rentabilidade, mas o meu conselho para os produtores é não esperar nada da administração pública, além de impostos, enquanto não mudar o partido governante. |