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Alfabetização ou analfabetismo? |
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Ângelo Cristóvão Secretário da Associação de Amizade Galiza-Portugal 17 de Outubro de 2003 |
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Em 1988, durante a celebração de um seminário de sociolinguística
em Ourense, explicava-nos o sociólogo catalão Lluís V. Aracil a
parvoíce de explicar as causas do analfabetismo e dedicar grandes esforços
a realizar estatísticas sobre a matéria. Concisamente,
ele dizia que a causa do analfabetismo era, simplesmente, a natalidade.
O esforço deveria dedicar-se, então, a fomentar o que em inglês
de chama “literacy” (saber de letra). O que faz sentido é
pensar e construir um sistema eficaz de alfabetização, que é o
aspeto positivo do problema. Isto implica falar em organização
dos sistemas de ensino, pedagogia, etc. Pensar no analfabetismo é
sintoma de uma inversão de valores culturais conduzente ao
insucesso.
Durante este ano começou-se a vender na Galiza a “Gran
Enciclopedia Galega Silverio Cañada”, redigida no portunhol
(mistura de português e espanhol) que constumam utilizar e
promover instituições como a Junta da Galiza e a Universidade de
Santiago. Em coerência com essa concepção da língua da
Galiza, as matérias figuram ordenadas pelas letras do alfabeto
castelhano, consequência de uma lógica política evidente. Reparámos
num item relevante do segundo volume:
“ANALFABETISMO, s.m.: 1. Estado ou condição
de analfabeto. 2. Fenómeno social caracterizado pela existência
de persoas analfabetas” (pág. 248), da autoria de Gonzalo
Anaya Santos et al.
A definição destes autores é circular e inútil porque nada
explica. Além do mais esta enciclopédia não inclui ALFABETIZAÇÃO
nem ALFABETO, que poderiam ajudar a compreender alguma coisa relativa a
esse fenómeno citado. Estes conceitos, de valor universal, precisariam
algum esforço no sentido de salientar a sua importância capital para a
língua e a cultura, em geral, não restritamente galegos mas,
antes, concebidos e difundidos como elementos comuns para toda a
civilização. Porém, esta enciclopédia, que recebeu grande
apoio económico da Junta da Galiza, não foi pensada para
compreender o mundo. Foi redigida, principalmente, para transmitir uma
percepção da Galiza como Galicia, região
espanhola, com uma língua e cultura promovidas pelas instituições
oficiais apenas no caso de se apresentarem como radicalmente diferentes
da portuguesa e submetidas conceptual e legalmente à castelhana.
Os dois primeiros volumes desta obra antecipam a concepção do
conjunto, segundo a qual o caraterístico dos galegos não é
aquilo que temos em comum com os outros povos, ou a interpretação
que os galegos damos aos elementos comuns da civilização
europeia. Não, o salientável, aquilo que merece ser publicado
nesta obra é o peculiar, o específico, a “identidade”, o
que no âmbito político espanhol chamam agora “facto
diferencial”, definido em relação como o âmbito político
e cultural espanhol, em que se insere explicitamente a
“Enciclopedia Galega Silverio Cañada”.
A definição do conceito de analfabetismo, a incluir em duas páginas
várias estatísticas do castelhano na Galiza, reproduz e mascara a
dominação política da Galiza que é apresentada, nesta como
noutras obras, como a “realidade” social sem explicação
alguma, sem fornecer as chaves para compreendermos a relação
hierárquica e subsidiária, secularmente estabelecida, entre a língua
e cultura da Galiza e a espanhola. Apesar de a Espanha ser um estado
formalmente democrático, onde na Constituição se declara
existir uma igualdade de direitos entre os cidadãos, apesar do
denominado estado autonómico, de facto, mantém-se invariável o
submetimento das comunidades linguísticas de origem não
castelhana. Em contraposição com o representado por esta perniciosa enciclopédia regional espanhola, os lusófonos galegos assumimos o caminho da universalidade através da promoção do português como língua nacional da Galiza, o que não impede que o castelhano seja utilizado também, mas apenas como segunda língua instrumental, como também o inglês e o francês, que devem fazer parte do ensino logo nos primeiros anos da escolarização. (Artigo publicado na edição impressa de 17 de Outubro, pág.18). |