|
É notícia que o príncipe de Espanha, Felipe de Borbón, acaba de
anunciar o seu próximo casamento com a jornalista Letizia Ortiz.
Entrado o século XXI, o povo continua a ver-se sujeito a cerimónias
medievais, adereçadas mediaticamente com o bombardeamento humanitário
dos telejornais, magazines, e outros subprodutos. Entre os absurdos
desta situação política e social está a necessária aprovação
deste futuro casamento polas Cortes espanholas (as câmaras do Congresso
e o Senado). O epígrafe 4 do artigo 57 do Título II da Constitución
Española diz (intraduzo, porque as leis espanholas,
espanholas devem ficar, não distorcidas polo falacioso exercício
de pretender fazê-las galegas, bascas ou catalãs a
traduzi-las): "4. Aquellas personas que teniendo
derecho a la sucesión en el trono contrajeren matrimonio contra la
expresa prohibición del Rey y de las Cortes Generales, quedarán excluídas
en la sucesión a la Corona por si y sus descendientes". Quer
dizer, se as Cortes espanholas não aprovarem este casamento,
Felipe de Borbón não poderia ser rei de Espanha quando Juan
Carlos morrer. Mas a hipótese é impensável. E, contudo, outro rei ou
reina sofreríamos.
Mas, que lhe deu a monarquia, esta monarquia,
qualquer monarquia, à Galiza, a qualquer dos países do reino?
Ignoro tanto os detalhes da história política da Galiza como a de
Espanha, é um dos meus problemas mentais. Mas, como amostra, dos últimos
fotogramas que mais ficam na minha retina é o do actual rei Juan Carlos
a descer ex-machina à praia totalmente petroleada de
Mugia, quando do inacabável desastre do Prestige, com os seus impecáveis
sapatos pagos por nós, a fazer-se a foto enquanto criticava os políticos
que se faziam a foto. Pura propaganda monárquica e direitista. Porque,
não esqueçamos, o rei é o Chefe do Estado, do mesmo estado que
leva décadas a mostrar negligência, desprezo e esquecimento polo
bem-estar das gentes da Galiza. E o rei é o Chefe de Todos os Exércitos,
dos mesmos exércitos que tardaram semanas em baixar a limpar o piche
das nossas praias mas tardaram dous dias em ir a Iraque para matar
humanitariamente ou repartir esmola ocidental a um povo que deveria ser
deixado em paz. Portanto, o rei não é nem pode ser neutral: nem
este, nem o vindeiro, nem nenhum. A monarquia é um jacobino resíduo
sexista, classista e espanholista, num país de países envenenado por Gran
Hermano. Porque, por qual razão que não for primitiva
se herda patrilinearmente a representação política, o controlo
de todos os exércitos, o privilégio de sancionar as leis, de nomear o
presidente do governo eleito polo parlamento, etc. etc.? A monarquia é
o maior obstáculo para o raciocínio humano numa Espanha politicamente
esclerótica.
E um parlamento inteiro de 350 pessoas terá de se
pronunciar, de uma maneira ou outra, sobre se o sangue azul de Felipe se
pode mesclar ou não com o sangue vermelho de Letizia! Se podem ou
não os amantes legitimamente misturar os seus orgânicos humores
nas noites em que os seus exércitos continuem a ocupar humanitariamente
qualquer país! Será interessante ver que posição política
sobre esta erótica ligação (ir)real tomam no parlamento
espanhol os (poucos) representantes do nosso republicano Bloque (sic)
Nacionalista Galego.
Mas dizem as boas línguas que entre os inconfessados
planos políticos deste principinho azul Felipe estaria, quando herdar a
coroa, renunciar e submeter a monarquia a referendo. Ou algo assim.
Seria o acto mais inteligente da sua vida. Espero viver para vê-lo,
agora que o povo está desactivado para botar directamente a monarquia
aos caimães do esquecimento, que é o que merece. Sim, seria
inteligente, sobretudo porque Felipe poderia ganhar o referendo! Mas já
sabemos que a inteligência está renhida com o Poder. E a Galiza,
se na altura ainda existe, continuará a ter rei para um tempinho. Até
anda outro nobre chamado de Bragança por aí a fazer-lhe as beiras
à Galiza, como se um só pretendente não fosse suficiente.
Vaites, vaites!, como enxotamos nós os maus agoiros. Saúde e
república --diz o colega António Gil--, que é uma forma algo menos
cavernícola de oprimir-nos.
Celso Álvarez Cáccamo
(Artigo
publicado na edição impressa de 7de Novembro, pág. 4) |