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Falares galegos, língua portuguesa |
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Carlos Durão Londres 17 de Outubro de 2003 |
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Acostuma dizer-se que, a norte da raia, “fala-se galego”.
De facto, “o galego” (“el gallego”) é
hoje reconhecido pelas autoridades espanholas, que o consideram língua
“própria” da Galiza (para elas “Galicia”), ao
mesmo tempo que “lengua también española”, como
p.ex. na Constituição espanhola ou no Estatuto de Autonomia da
Galiza. E as “autoridades” linguísticas espanholas têm
feito os máximos esforços por “provar” que essa língua
falada a N da raia, que é cooficial com o castelhano, não tem
nada a ver com a que se fala a S da raia, que é oficial no Estado
português.
Ora, a realidade é que a verdadeira língua oficial da Galiza é a
espanhola, que é a língua que abrange todo o Reino de Espanha.
E “o galego” são de facto “os
galegos”, os falares, falas ou dialetos galegos da Galiza oficial
(as quatro províncias da Corunha, Lugo, Ourense e Ponte Vedra) e mais
da Galiza chamada “exterior” (Návia, Berzo e Seabra,
comarcas ocidentais das Astúrias e de Leão), ou seja os dialetos
portugueses do N da raia, em geral tanto mais castelhanizados quanto
mais distantes dela. Para
esses dialetos, as autoridades espanholas inventaram uma
“ortografia” espanhola, que reflite uma
“ortofonia” também quase espanhola (quer dizer adatada
à fonética dos hispanófonos galegos), e tornaram-na obrigatória
nos centros de ensino e nas edições subsidiadas, banindo a
ortografia e ortofonia realmente próprias da língua, ou seja
portuguesas: esta é a posição dita isolacionista, obediente
às diretrizes dum partido político
de âmbito estatal.
Existem, claro, dissidências, grupos minoritários e independentes
do oficialismo, que não estão dispostos a aceitar este
“facto consumado” e que procuram falar e escrever bem o
português, considerando que une e dá coesão a todos esses
falares, e nos relaciona cabalmente com o resto da Lusofonia, quer dizer
que é a norma culta da nossa língua.
Naturalmente esses grupos são sanhudamente perseguidos e
banidos do ensino e dos subsídios oficiais (como, aliás, nos melhores
tempos da ditadura franquista). Mesmo
assim, conseguem manter uma presença social muito superior ao seu número,
publicando livros e revistas, celebrando congressos, seminários, etc.,
que nos derradeiros vinte anos têm alertado a sociedade galega
para o perigo da espanholização e exercido certa pressão
nas opções filológicas até dos próprios isolacionistas.
Há ainda uma posição intermédia, digamos quase lusógrafa mas
não lusófona, ainda muito dependente do espanhol na grafia, na
fonética e na morfologia e sintaxe, que parece ter certas esperanças
de ser aceite ou pelo menos tolerada pelo oficialismo.
Os seus utentes, embora digam que a sua posição é temporária
e que está a caminho do alvo final português, de facto cada vez
mais ficam estacados num imobilismo cómodo ou docilmente submetidos
à política linguística dum partido, e ainda pretendem
“exportar” os seus produtos ao mundo lusófono, sem reparar
que estão a criar confusão entre as pessoas lusófonas de
boa vontade que realmente querem ajudar a Galiza na recuperação
da sua língua. O que fazer? Certamente nós, a N da raia, temos muito que fazer para ampliar essas minorias críticas e continuar consciencializando as pessoas. Mas a S da raia também os nossos irmãos transmontanos e minhotos muito poderiam fazer para alentar a língua portuguesa na Galiza e recusar tanto o isolacionismo oficial como essas meias-tintas gráficas e fonéticas, que afinal são mau português, e insistir num padrão correto para a nossa língua, seja ele o que se continua a empregar em Portugal ou o do ainda não ratificado Acordo da Ortografia Unificada de 1990, no que está explicitamente reconhecida a participação da Galiza. (Artigo publicado na edição impressa de 17 de Outubro, pág.18). |