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A periferia do futuro |
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Manuel A. Fernández Montecelo 3 de Novembro de 2003
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É
comum pensar na Galiza e norte de Portugal como regiões periféricas,
ambas estão longe das rotas comerciais europeias e
geograficamente afastadas dos territórios mais dinâmicos e poderosos
economicamente. Reparemos: utilizam-se as expressões "longe
das rotas" e "geograficamente", que implicam que estão
a maior distância/tempo da zona ou zonas consideradas centrais.
Ainda há uma outra forma de ver a periferia, como a "distância
tecnológica", nas telecomunicações e o que com eles se
relaciona. Já hoje uma escola secundária não é privilegiada
por estar perto duma boa biblioteca, se existir material electrónico
disponível de qualidade comparável na rede; nem seria necessário
morar perto de zonas onde realizar tarefas administrativas se houvesse
uma administração electrónica que funcionasse bem. Se sou matemático
ou tradutor de livros, que importa onde moro se posso enviar o meu
trabalho aonde quiser em poucos segundos?
Mas mais do que as vantagens concretas que se obtêm, podíamos
reparar no contrário: que se passa com as pessoas leigas nos novos métodos
de comunicação e de obtenção de informação? É
difícil fazer comparações com problemas modernos parecidos,
porque ainda não sabemos bem de todo o impacto que pode ter isto
na sociedade, mas quiçá não erramos muito se pensarmos na situação
dos camponeses que trabalhavam com métodos tradicionais, com a chegada
de maquinaria especializada, ou uma pessoa na área administrativa duma
empresa que não soubesse utilizar telefone, fax e aparelhos do género.
Quem é que pode estar num posto administrativo hoje sem saber utilizar
um computador? Quantas áreas mais podemos acrescentar? É possível a
sobrevivência laboral à margem destas
tecnologias por uns anos, e muitas pessoas agora activas nos seus
trabalhos continuarão a tê-los (ainda que perdendo
competitividade) sabendo pouco ou nada, mas isto já não é possível
para quem começa agora.
Ainda falta o mais grave, porque não é apenas algo profissional:
é algo integral na formação das pessoas. Se ainda restam dúvidas,
então pensemos no futuro sócio-económico das áreas onde hoje há
serviço de telefone ou electricidade deficientes e comparemos com o que
se pode passar com estas tecnologias ainda mais recentes. Não só
faltam empresas onde trabalhar, como também não se tem acesso
(ou é muito mais restrito) a eventos culturais e serviços.
Na Galiza existe muita menor percentagem de gente com acesso a
computadores e à Internet que em outras zonas, sempre esteve
marginalizada no campo das comunicações (de transporte, telefone
e de todo o género) e também agora da tecnologia, com o cabo que só
existe em algumas zonas urbanas, rede de telefone básica que não
permite ligar-se mediante banda larga e a telefone rural, que não
permite ligar-se a Internet de nenhuma maneira. São semelhantes
os problemas com a rede eléctrica em muitas zonas. E o principal é que
no ensino também não se está a fazer nada, em parte pela própria
obsolescência de quem dirige e de quem tem de ministrar as aulas.
Suspeito que o mesmo
problema acontece no norte de Portugal (salvo Porto, e talvez nos últimos
tempos no resto das cidades), pela distribuição demográfica e
outras características comuns desta nossa euro-região.
É importante portanto não esquecermos que a formação
(por outra parte nada simples, pôr diante dos alunos um computador sem
mais não serve) nestas novas tecnologias é peça fulcral, pelo
que podemos intuir, nas novas gerações das nossas sociedades
ocidentais. Pode ser muito mais importante para uma zona periférica uma
adequada actualização tecnológica
que uma estradinha mais ou menos rápida com ligação à
cidade mais próxima.
Não deixemos que, já estando na periferia no passado e presente,
isto faça com que fiquemos também na periferia do futuro. |