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Um tema voluntariamente esquecido |
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António Gil Da Associação de Amizade Galiza-Portugal 24 de Outubro de 2003 |
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Cara amiga, caro amigo, portugueses em todo o caso: Desde a outra parte da ‘raia' galega (da seca e da molhada) começo as minhas cartas que vos dirijo fundamentalmente a vós, amigos portugueses. Sem dúvida também os meus concidadãos galegos poderão aproveitar-se delas ou isso pretendo.
Inicio-as com um tema que acho injusta e escassamente tratado
nessa parte da ‘raia' e escondido e maltratado nestoutra, de toda
a ‘raia' espanhola desde Tui até Ayamonte.
Começo, a modo de pretexto, por uma nótula que publicou
‘Diario de Notícias' (Lisboa) o primeiro dia deste mês de
Setembro. Coloco-a completa: «CIA reconhece diferendo de Olivença
(C. A.) «Pela primeira vez no relatório anual sobre disputas
internacionais, a CIA passou a incluir o contencioso de Olivença,
território em que Portugal e Espanha continuam por delimitar os
respectivos limites fronteiriços. Desde o início de Agosto que a CIA
faz referência expressa a periódicas reclamações
portuguesas sobre aquele território, há dois séculos ocupado pela
Espanha à margem do direito dos tratados.
«A
disputa de Olivença é referida pela agência norte-americana, em
separado e nos mesmos termos, tanto no índice de conflitos de Portugal
como no de Espanha. Até agora, Portugal era dado como um país sem
qualquer contencioso de carácter internacional, a contrastar com a
apreciável lista de diferendos protagonizados por Espanha. «A
listagem da CIA é usada como suporte de trabalho tanto pelos media como
pelas chancelarias e, no que respeita aos EUA, não poupa referências
a contenciosos territoriais com o Canadá, às reivindicações
do Haiti sobre a ilha Navassa e das ilhas Marshall sobre a Wake, entre
outros.»
Ignoro quanto e como se discutiu esta notícia em Portugal. Sei que no
Reino da Espanha foi mal transmitida e pior comentada, até com desprezo
e em recantos da imprensa ou em momentos mínimos da rádio. Parece-me
que nenhuma TV disse nada nem a favor nem em contra.
Não
obstante, não é a notícia em si que me interessa, mas o estado
de opinião tão diverso que existe na República portuguesa
perante uma "questão" semelhante duma que vem sendo
estimada fundamental no Reino vizinho: Neste a "Questão de
Gibraltar" esteve presente como reivindicação patriótica
de todos os governos e sistemas políticos desde sempre, mas sobretudo
durante o séc. XX: Monarquia absoluta e constitucional, ditaduras,
Restauração monárquica. Todos os governos reclamam
sistematicamente a devolução do reduzido território de
Gibraltar, com toda a justiça espanhol, embora fosse cedido ao Reino
Unido em Trtado de Paz.
Assusta, ao comparar situações, o facto de na República
portuguesa apenas um grupo muito escasso de cidadãos persistirem
na reclamação dum território conquistado pela Espanha na
"Guerra das Laranjas" (1801), guerra aliás injusta, e
ulteriormente devolvido também por Tratado internacional. Essa devolução
foi e é unicamente nominal: promessa incumprida. Sem procurar culpas
nem novos "casus belli" entre os Estados vizinhos, sim vale a
pena refletir um pouquecho no assunto: O Reino da Espanha não
cumpre a promessa ou Tratado, aliás, bem conhecido dos portugueses, mas
os portugueses, as autoridades portuguesas lembram, como "questão
de Estado", a devolução de Olivença?
(Artigo publicado na edição impressa de 24 de Outubro, pág. 10). |