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Permito-me, mais uma vez, dar a lume umas reflexões, velhas, muito velhas,
neste mundo de imediatezes desacougadas, que atualizo levemente. Conservo
o título que coloquei às primeiras: «As minhas razões para acreditar na
Lusofonia». Pretendo que ecoe o do livro do saudoso Prof. Rodrigues Lapa
'As minhas razões. Memórias de um idealista que quis endireitar o
mundo...' (Coimbra Editora, 1983).
No meu texto, que
foi publicado em 'Cadernos do Povo. Revista Internacional da Lusofonia'
(núms. 5-14, 1988-89, pp. 17-19), começava de expor a concepção de
LUSOFONIA para delinear a seguir as tarefas que hão-de cumprir-se e as
condições para a verificar.
1. Entendo por LUSOFONIA a Comunidade integrada por aquelas pessoas que
podem exprimir-se na Língua Portuguesa e assim o fazem habitualmente.
Porém, a LUSOFONIA pressupõe determinada concepção da unidade que anima os
lusófonos e sobretudo acarreta um discurso a legitimar essa concepção
unitária, à qual alguns lhe diriam "sentimento". É com a afirmação da
unidade que se constrói a unidade; é com a procura de motivações
unificantes e não precisamente uniformadoras que o processo de unidade
acabará tomando corpo de firmeza.
Entendo que são condições terminantes para verificarmos a LUSOFONIA quer a
vontade, também política, de a realizar, quer a assumpção generalizada do
discurso da unidade. Caberia resumir ambas as faces numa expressão como
«queremos ser lusófonos porque já o somos, apesar das diferenças e por
elas mesmas».
2. Dentre as TAREFAS possíveis assinalo as de RECONHECIMENTO, as de
IDEAÇÃO e as de ORGANIZAÇÃO.
2.1. Relativamente às TAREFAS DE RECONHECIMENTO, entendo que o património
da LUSOFONIA assenta naqueles grupos que, independentemente da sua
adscrição "nacional", quer dizer, estatal, profundizam e promovem os
valores tradicionalmente transmitidos a meio da Língua Portuguesa, que,
aliás, denomino "sentimentalidade intencionalmente eficaz",
"universalidade sempre particularizada" e "persistência esperançadamente
disponível". «Lirismo», «saudade», «descobertas», «retranca»... satisfazem
esses valores.
2.2. Relativamente às TAREFAS DE IDEAÇÃO considero que, perante as
tentações de eficácia imediata, de particularização individualista, de
disponibilidade veleidosa, a cultura lusófona pode e deve incidir nos
valores tradicionais e injetá-los (como vacina confortante por doses
apropriadas) nas novas gerações, não apenas da LUSOFONIA, mas também nas
pertencentes a outras Cmunidades Linguísticas.
2.3. Relativamente às TAREFAS DE ORGANIZAÇÃO, preciso que os cidadãos de
Portugal e da Galiza hão-de compreender que, nas circunstâncias atuais, a
condição de europeus (e, no caso dos galegos, também a de administrados do
Reino da Espanha) não invalida a sua radical nacionalidade cultural
lusófona. A comunicação consciente e medidamente procurada pelos cidadãos
dos Sete (mais dous: Timor e a Galiza) e com eles e entre eles, o
conhecimento ou reconhecimento da própria história e a ideação de
tradições comuns e diversas, mas renovadas, libertarão da ignorância e da
inconsciência, hoje generalizadas, os cidadãos da Galiza com a ajuda,
sobretudo, dos cidadãos portugueses, os lusófonos "normais" mais próximos,
como corresponde nestes tempos de rotura de fronteiras.
3. Reduzo a duas as CONDIÇÕES que possibilitarão o cumprimento dessas
tarefas.
3.1. Uma é a atividade cívica, não justamente a institucional. Hoje as
instituições e autoridades, enquanto tais, acham-se indecisas quando não
confusas e até desacertadas. É a consciência cívica dos cidadãos, de todos
e dos melhores, a construir e organizar plenamente a Lusofonia.
3.2. Outra condição consiste na definição do instrumento identificador da
Comunidade Lusófona, que se manifesta na Ortografia unificada desde 1990
mercê do Acordo Ortográfico assinado em Lisboa, em 12 de Outubro, por
representantes dos Sete países de Língua Oficial Portuguesa com a presença
de observadores não governamentais da Galiza.
Datei a primeira redação deste escrito em Acrunha (Galiza-Spain) em
Dezembro de 1988.
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